Trying, for a change, to skip the train of thought
the train of thought that led to... how do these add up?
trying, for a change, to skip the details and explanations.
stop making sense
only the absolute certainty of one imediate, ultimate, and shamefull need:
for the provision ex machina
who comes in singing
Roxanne, you don´t have to wear that dress tonight.
Those days, Roxanne, my dearest,
are over.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
dois livros e nenhum grafite
"e porque já somos pessoas sem ódio"
primeira coisa ao chegar foi procurar Bonnie and Clyde 0,1% 0,2% 0,1%
1.6%
....
Hoje o trânsito foi maior que eu, assim. ganhou-me, unido à dor de estômago que vai e vem desde o pêssego das 12:36. Chego a perguntar-me se comi pêssegos demais essa semana. Mas um foi uma nectarina, justifico.
Uma daquelas chuvas extremamente previsíveis, que quase me agradam nesse ritual de respeito a uma força maior que minha obrigação das 18:50 em São Caetano da Putaqueopariu (nenhum tom de grosseria desejado, apenas uma unidade de medida de distância mesmo)
a questão é que aviso desde já que esse trecho está todo errado, que essas palavras já foram escritas antes hoje, e que na falta de superfície se perderam por rios de sarjeta, nas ladeiras afluentes da Paulista. Isso aqui, sinto informar-me, é a cópia da cópia da cópia da cópia, e a paixão platônica das palavras primeiramente pronunciadas na minha cabeça é meio de cristo, meio trágica, impossivel. Isso aqui é um rascunho depois da obra. saca? Uma pena, mas a obra que fique lá, acriticável, nos meus momentos de pequeniníssimos assombros de encontrar na catedral de hoje.
Quis deixar apenas a luz do corredor acesa. Mas não pude, porque quando a da sala queimou, troquei a lâmpada por uma incandescente, que é agora a única luz decentemente quente da minha casa. Todas as outras, deixadas por ela, frias. Não é nenhum espanto. Substituo aos poucos, com uma calma inventada que deixa as roupas no chão.
Dizia, o trânsito, a chuva. Permiti que imperasse sobre meus deveres, larguei-o (la machina, la maledetta odiosa maccchhhhiiinnnna.) Fui sentar-me no café a ler Ana Cristina. Procuro a caneta, que agora de súbito estou produtiva, desejo anotações imprescindíveis e utilíssimas, calculo as pontas de uma produção um pouco mentirosa, mas muito menos preguiçosa que minha presença em casa. Não trouxe caneta. Retorno ao livro. Na falta de grifos, faço infinitas orelhas nas páginas, marco numa mistura imensa os poemas que interessam tanto a um assunto como ao outro, começo a sentir uma vontade imensa de rasgar pequenos pedaços das páginas, fazer cortes no espaço entre as linhas, origami de cada página, que expresse todas as minhas flechas e notas. Maldita seja essa necessidade de palavras. Desencano, teórica, da fidelidade ao distanciamento de estudo. leio. A mão direita se alterna entre o copo de chai, e o pêlo ínfimo, imperceptível e resistente, que não cede às minhas unhas descascadas: minha discretíssima obcessão.
Começa a vir-me uma vontade imensa de escrever, não, que eu perdoe-me a mim mesma-me a imbeleza desta imagem: uma vontade de escrever que é quase um movimento peristáltico. Se não morresse de vergonha de mim mesma começaria ali um vômito íngreme de palavras (não tenho a mais vaga ideia quais) Mas faladas as palavras, que se queriam escritas, se esvaziariam.
Olho em volta, procuro mesmo. Chego a procurar no chão por um lápis ex machina. Porque algum deus haveria de existir, e algum deus haveria de haver deixado cair um lápis junto aos guardanapos amassados debaixo dessa poltrona, tenho absoluta certeza. Olho em volta de novo, se alguém olhasse bem de perto veria uns olhos quase de absitinência. Vejo os palitinhos de mexer café, os potes de canela e açucar, e me imagino escrevendo com palitinhos e canela. Tomo uma certa coragem ridícula, e pergunto às garotas na minha frente se têm um lápis. Não. Poderia pedir a qualquer outra pessoa, o café está lotado, e alguém terá um lápis. Mas me dou por derrotada e ridícula. A garota no balcão parece a Carol. tem o cabelo da carol, o corpo da carol, se veste um pouco melhor que a carol, e se fosse a carol me emprestaria um lápis. Poderia escrever com o meu guarda-chuva. "a menina que escrevia com um guarda-chuva", imagino mais um personagem de conto infantil que não vou escrever. Volto ao livro, tento controlar-me.
Paro em algum momento crucial, alguma frase que exige um olho que olhe pra outro ponto, e a re-imagine. leio "starbucks" e alguma cidade que não me lembro. outro quadro e outras palavras, e todos os cantos estão cheios de palavras e só eu não posso, só eu só eu não posso preciso quero tanto, roubaria a lapiseira das mãos dela e sairia em disparada fugindo triunfante com meu pão nosso de cada dia nas mãos. É que estou quase enfiando-me numa personagem pobre, sinto uma inveja faminta deles todos, como se sentisse de fato fome, e eles comessem. Uma fraqueza de fome que nem me permite pedir um pedaço.fome fome. Só penso envergonhada "Ninguém nesse café tem um grafite 0.5?" "Ninguém nessa porra de café tem um grafite 0.5?" 0.5? Ou era 0.7? Sempre erro, compro sempre o grafite errado, acumulo em casa caixas e caixas de grafite inutil e carrego comigo lapiseiras vazias.
Os homens, como os poemas, ou os grafites, vêm sempre na hora errada.
"um remédio da minha cabeeeeça... misturando o mel de abelha com bicarbonato de sódio"
Volto ao livro. leio mais um pouco, afundo-me de não saber quem são se é que são alguém Gil, Ângela, e nem poder escrever que não sei quem são. Quis grifar:
"O mesmo Gil que jura que são de Shakespeare os versos "trepar é humano, chupar divino" e desvia o olhar para o centro da mesa, depois de diagnosticar silenciosamente minha paranóia."
rio.
Transformada a angústia trágica e as palavras épicas em comédia rasgada interna, termino a página, troco de livro. And just like that I am transported. Because this is the work of a copyist, let it be clear, but a copyist, I feel, using each and every wrong word. I can hear her voice. Patti speaks a bit like some woman I´ve heard in a movie. Strong voice, yet sweet, surprised at her own self. I read, treasuring, yet another page of my recently elected Romeo and Juliet, Tristan and Isolda, my Romantic, ideal and purest love heroes: Patti and Robert. each page is cherished and rationed as water, already sure as a little girl, that this will be the most beautifull love story I will ever know.
Like a small London girl reliving the time of the princesses, and making sketches of beautifull castles and a strong prince; while reading MY chosen fairytale, I imagine passionately that love was only true and possible in the 60s and 70s. Not a sad feeling, just a conscious dive into a kind of subversive Bovary state, and it beautifies all colors around, and brings me to tears. Every word of hers seems to be drawn like a thin weed from fluf earth, put together as the poor ornaments they both collected in the sweet cold of the hunger years.
I notice it is already the second phrase in the same page that has produced a line streaming down my face. As I am now the little child reader, embarassed, I get together my things, decide to leave the cafe, and show no more of my weak emotions to the strangers pittyless of those in need of pencil.
The street is wet, and I cry a little. I cry because the city is beautifull, I cry because I want to write, I cry because I am not writing, I cry because I have never writen, I cry because the sky is the same color of that picture I took, that night in December. I cry, but only very little. A Paulista é linda, e eu decido não limpar o rosto das duas linhas que brilham simétricas. Ignoro a vergonha ao atravessar a rua exposta, por um motivo puramente estético (sempre confundo aesthetic with static) - And if they both were "aesthetic thiefs", I would be an aesthetic cryer. Porque a Paulista está mesmo linda com o ornamento de duas lágrimas meio Românticas, datadas e quase cristãs. A Paulista está muito bonita ornada com esse pequeno pontinho amarelo que deslisa em passinhos rápidos. O que é o que é um pontinho amarelo na paulista? Não, a Paulista está mesmo linda com esse pequeno risco amarelo, porque sou mais um pequeno risco que um pequeno ponto. A dor de estômago começa a voltar, e a cidade é tão excessiva que até a lua parece eternamente sair de trás do escuro, prometer uma outra face que não faz-se.
I would be an aesthetic cryer. Mas ali mais pra frente, penso ver de canto de olho aproximar-se um homem, e para me defender de uma cantada desagradavel por enquanto apenas prevista, I quickly wipe my face, and put my hand in my pocket. E me lembro dos votos de fidelidade à arte, acho dificílimo e lindo que se façam votos destes nos nossos tempos. Só mesmo quando o amor era possivel, teria sido possivel a arte. Desejaria ter tido também esta coragem. Lembro-me que fiz como estes apenas dois votos na vida: mais de uma vez, num trem que se afastava de Verona, prometi intensa e imensamente o retorno, e tenho cumprido. Um voto talvez a uma família escolhida. The other, standing in front of a Paul Klee painting, the promise of a son. An offering: The painting as a present to a future child, and the future child as a present to the painting.
Doscendo a Peixoto Gomide, percebi gostar das sandálias de 30 reais, por causa da alta música íngreme e rítmica de descida criada por elas. Retomo o caminho de volta ao carro, sentindo na sola o sabão seco do rio que se formara de alguma lavagem na ida: espuma assim sem mais escorrendo em meio ao trânsito. E sinto voltar a dor de estômago, que invento dever melhorar devido à caminhada. Talvez tenha comido pêssegos demais essa semana. No caminho para casa passo pelos mesmos faróis que se lembravam de mim no dia dos amarelos, hoje vermelhos todos, te-lo juro, e está escrito "delivery rodésia" em algum lugar, porque vou jogando as frases que me lembrar até não acabar mais, porque essa história não tinha fim, Ana.
75.2% - quase.
primeira coisa ao chegar foi procurar Bonnie and Clyde 0,1% 0,2% 0,1%
1.6%
....
Hoje o trânsito foi maior que eu, assim. ganhou-me, unido à dor de estômago que vai e vem desde o pêssego das 12:36. Chego a perguntar-me se comi pêssegos demais essa semana. Mas um foi uma nectarina, justifico.
Uma daquelas chuvas extremamente previsíveis, que quase me agradam nesse ritual de respeito a uma força maior que minha obrigação das 18:50 em São Caetano da Putaqueopariu (nenhum tom de grosseria desejado, apenas uma unidade de medida de distância mesmo)
a questão é que aviso desde já que esse trecho está todo errado, que essas palavras já foram escritas antes hoje, e que na falta de superfície se perderam por rios de sarjeta, nas ladeiras afluentes da Paulista. Isso aqui, sinto informar-me, é a cópia da cópia da cópia da cópia, e a paixão platônica das palavras primeiramente pronunciadas na minha cabeça é meio de cristo, meio trágica, impossivel. Isso aqui é um rascunho depois da obra. saca? Uma pena, mas a obra que fique lá, acriticável, nos meus momentos de pequeniníssimos assombros de encontrar na catedral de hoje.
Quis deixar apenas a luz do corredor acesa. Mas não pude, porque quando a da sala queimou, troquei a lâmpada por uma incandescente, que é agora a única luz decentemente quente da minha casa. Todas as outras, deixadas por ela, frias. Não é nenhum espanto. Substituo aos poucos, com uma calma inventada que deixa as roupas no chão.
Dizia, o trânsito, a chuva. Permiti que imperasse sobre meus deveres, larguei-o (la machina, la maledetta odiosa maccchhhhiiinnnna.) Fui sentar-me no café a ler Ana Cristina. Procuro a caneta, que agora de súbito estou produtiva, desejo anotações imprescindíveis e utilíssimas, calculo as pontas de uma produção um pouco mentirosa, mas muito menos preguiçosa que minha presença em casa. Não trouxe caneta. Retorno ao livro. Na falta de grifos, faço infinitas orelhas nas páginas, marco numa mistura imensa os poemas que interessam tanto a um assunto como ao outro, começo a sentir uma vontade imensa de rasgar pequenos pedaços das páginas, fazer cortes no espaço entre as linhas, origami de cada página, que expresse todas as minhas flechas e notas. Maldita seja essa necessidade de palavras. Desencano, teórica, da fidelidade ao distanciamento de estudo. leio. A mão direita se alterna entre o copo de chai, e o pêlo ínfimo, imperceptível e resistente, que não cede às minhas unhas descascadas: minha discretíssima obcessão.
Começa a vir-me uma vontade imensa de escrever, não, que eu perdoe-me a mim mesma-me a imbeleza desta imagem: uma vontade de escrever que é quase um movimento peristáltico. Se não morresse de vergonha de mim mesma começaria ali um vômito íngreme de palavras (não tenho a mais vaga ideia quais) Mas faladas as palavras, que se queriam escritas, se esvaziariam.
Olho em volta, procuro mesmo. Chego a procurar no chão por um lápis ex machina. Porque algum deus haveria de existir, e algum deus haveria de haver deixado cair um lápis junto aos guardanapos amassados debaixo dessa poltrona, tenho absoluta certeza. Olho em volta de novo, se alguém olhasse bem de perto veria uns olhos quase de absitinência. Vejo os palitinhos de mexer café, os potes de canela e açucar, e me imagino escrevendo com palitinhos e canela. Tomo uma certa coragem ridícula, e pergunto às garotas na minha frente se têm um lápis. Não. Poderia pedir a qualquer outra pessoa, o café está lotado, e alguém terá um lápis. Mas me dou por derrotada e ridícula. A garota no balcão parece a Carol. tem o cabelo da carol, o corpo da carol, se veste um pouco melhor que a carol, e se fosse a carol me emprestaria um lápis. Poderia escrever com o meu guarda-chuva. "a menina que escrevia com um guarda-chuva", imagino mais um personagem de conto infantil que não vou escrever. Volto ao livro, tento controlar-me.
Paro em algum momento crucial, alguma frase que exige um olho que olhe pra outro ponto, e a re-imagine. leio "starbucks" e alguma cidade que não me lembro. outro quadro e outras palavras, e todos os cantos estão cheios de palavras e só eu não posso, só eu só eu não posso preciso quero tanto, roubaria a lapiseira das mãos dela e sairia em disparada fugindo triunfante com meu pão nosso de cada dia nas mãos. É que estou quase enfiando-me numa personagem pobre, sinto uma inveja faminta deles todos, como se sentisse de fato fome, e eles comessem. Uma fraqueza de fome que nem me permite pedir um pedaço.fome fome. Só penso envergonhada "Ninguém nesse café tem um grafite 0.5?" "Ninguém nessa porra de café tem um grafite 0.5?" 0.5? Ou era 0.7? Sempre erro, compro sempre o grafite errado, acumulo em casa caixas e caixas de grafite inutil e carrego comigo lapiseiras vazias.
Os homens, como os poemas, ou os grafites, vêm sempre na hora errada.
"um remédio da minha cabeeeeça... misturando o mel de abelha com bicarbonato de sódio"
Volto ao livro. leio mais um pouco, afundo-me de não saber quem são se é que são alguém Gil, Ângela, e nem poder escrever que não sei quem são. Quis grifar:
"O mesmo Gil que jura que são de Shakespeare os versos "trepar é humano, chupar divino" e desvia o olhar para o centro da mesa, depois de diagnosticar silenciosamente minha paranóia."
rio.
Transformada a angústia trágica e as palavras épicas em comédia rasgada interna, termino a página, troco de livro. And just like that I am transported. Because this is the work of a copyist, let it be clear, but a copyist, I feel, using each and every wrong word. I can hear her voice. Patti speaks a bit like some woman I´ve heard in a movie. Strong voice, yet sweet, surprised at her own self. I read, treasuring, yet another page of my recently elected Romeo and Juliet, Tristan and Isolda, my Romantic, ideal and purest love heroes: Patti and Robert. each page is cherished and rationed as water, already sure as a little girl, that this will be the most beautifull love story I will ever know.
Like a small London girl reliving the time of the princesses, and making sketches of beautifull castles and a strong prince; while reading MY chosen fairytale, I imagine passionately that love was only true and possible in the 60s and 70s. Not a sad feeling, just a conscious dive into a kind of subversive Bovary state, and it beautifies all colors around, and brings me to tears. Every word of hers seems to be drawn like a thin weed from fluf earth, put together as the poor ornaments they both collected in the sweet cold of the hunger years.
I notice it is already the second phrase in the same page that has produced a line streaming down my face. As I am now the little child reader, embarassed, I get together my things, decide to leave the cafe, and show no more of my weak emotions to the strangers pittyless of those in need of pencil.
The street is wet, and I cry a little. I cry because the city is beautifull, I cry because I want to write, I cry because I am not writing, I cry because I have never writen, I cry because the sky is the same color of that picture I took, that night in December. I cry, but only very little. A Paulista é linda, e eu decido não limpar o rosto das duas linhas que brilham simétricas. Ignoro a vergonha ao atravessar a rua exposta, por um motivo puramente estético (sempre confundo aesthetic with static) - And if they both were "aesthetic thiefs", I would be an aesthetic cryer. Porque a Paulista está mesmo linda com o ornamento de duas lágrimas meio Românticas, datadas e quase cristãs. A Paulista está muito bonita ornada com esse pequeno pontinho amarelo que deslisa em passinhos rápidos. O que é o que é um pontinho amarelo na paulista? Não, a Paulista está mesmo linda com esse pequeno risco amarelo, porque sou mais um pequeno risco que um pequeno ponto. A dor de estômago começa a voltar, e a cidade é tão excessiva que até a lua parece eternamente sair de trás do escuro, prometer uma outra face que não faz-se.
I would be an aesthetic cryer. Mas ali mais pra frente, penso ver de canto de olho aproximar-se um homem, e para me defender de uma cantada desagradavel por enquanto apenas prevista, I quickly wipe my face, and put my hand in my pocket. E me lembro dos votos de fidelidade à arte, acho dificílimo e lindo que se façam votos destes nos nossos tempos. Só mesmo quando o amor era possivel, teria sido possivel a arte. Desejaria ter tido também esta coragem. Lembro-me que fiz como estes apenas dois votos na vida: mais de uma vez, num trem que se afastava de Verona, prometi intensa e imensamente o retorno, e tenho cumprido. Um voto talvez a uma família escolhida. The other, standing in front of a Paul Klee painting, the promise of a son. An offering: The painting as a present to a future child, and the future child as a present to the painting.
Doscendo a Peixoto Gomide, percebi gostar das sandálias de 30 reais, por causa da alta música íngreme e rítmica de descida criada por elas. Retomo o caminho de volta ao carro, sentindo na sola o sabão seco do rio que se formara de alguma lavagem na ida: espuma assim sem mais escorrendo em meio ao trânsito. E sinto voltar a dor de estômago, que invento dever melhorar devido à caminhada. Talvez tenha comido pêssegos demais essa semana. No caminho para casa passo pelos mesmos faróis que se lembravam de mim no dia dos amarelos, hoje vermelhos todos, te-lo juro, e está escrito "delivery rodésia" em algum lugar, porque vou jogando as frases que me lembrar até não acabar mais, porque essa história não tinha fim, Ana.
75.2% - quase.
domingo, 30 de janeiro de 2011
Superfície, Tela, Terreno
“a seda azul do papel que envolve a maçã”
a caneta faz diferença
a caneta, lápis, lapiseira, azul, preta, cinza, ponta fina, 07,9,5... determina.
Papel, caderno, computador: panela ou frigideira, com tefau ou sem.
Tudo são telas.
Computador: o cotidiano mesmo mesmíssimo teclado todo dia ela faz tudo sempre igual, disposições absolutamente gastas, não há novas combinações entre as mesmíssimas teclas. Explico. Certa vez tomei emprestado o computador da minha mãe para escrever um email. Outra marca, teclado, material. Nesta mesma vez sentei-me também noutra posição, sobre outro colchão. O design das teclas (e para não soar por demais representante de vendas do senhor Steve), a textura do material sob meus dedos, a temperatura sobre minha coxa- que difere em graus da máquina com a qual habituei-me tão rapidamente- mostram-se parte do próprio corpo daquilo que se escreve. Transparece inevitavelmente a mudança, a re-disposição daquilo que se cria num suposto universo abstrato.
É como se, talvez em menor escala, eu pensasse em outra língua.
A idéia não é algo imaterial, expelido em letras através de um ser humano com mãos, e tinta a disposição. Idéias são confeccionadas e construídas do material sobre o qual são projetadas. Óleo sobre tela; pensamento sobre metal mais ou menos frio, mais ou menos liso, através de um corpo mais ou menos confortável, dobrado sobre uma superfície mais ou menos dura, quente, áspera ou lisa. Não há, começo a aceitar, independência ou autonomia do pensamento, nem do ser pensante. A mente como unidade geradora de organizações, produtora de idéias desvinculada e apoderada do próprio corpo, do espaço em torno, é uma ficção. E arrisco o exagero: ficção produtora de cisões esquizofrênicas, delírios megalomaníacos, que beiram, ao mesmo tempo constantemente abismos de depressão: a improdutividade.
A tela, superfície imediata estende-se: o que vejo pela janela, o peso excessivamente conhecido desse ar. E a percepção da mudança minusculamente significativa que o peso e o material de outra máquina tiveram sobre minhas palavras, espelha-se na minha necessidade constante de “novos ares”. O corpo é o mesmo aqui, que seria ao pousar na china, certo? Não, absolutamente não. Terreno daquilo que penso, ou mais ainda sinto, é parte da concepção de tudo o que sai de mim, dependente de fora, completamente dependente. Mudança de material: preciso escolher madeira hoje, depois me esforçarei para conseguir grandes planícies plásticas, para cores mais vivas... Ou menos.
A descoberta da absoluta materialidade das ideias e sentimentos, essa afirmação inevitavel da dependência que a figura tem de sua tela, a compreensão da importância e da determinação criada pela superfície, gera ainda outra imediata compreensão: A minha necessidade quase Sabínica de enfileirar planos de partida. Melhor: modelar situações inimaginadas, produzir cuidadosamente a possibilidade do sentimento de todos os sentimentos: "I never thought I´d be here".
Daí a necessidade do novo terreno: não a traição do antigo, mas a soma de outras superfícies, que possibilitem a criação de novas combinações para os mesmos signos emocionais.
Talvez contraditório perceber que apesar dessa sequência infinita de nomes novos para placas de estrada, meu apego à nova superfície é sempre quase imediato! Coleciono em poquíssimos dias, minutos, horas, uma lista quase fotográfica de características daquele lugar, criadoras de ligações emocionais usualmente cotidianas, nesse caso guardadas como absolutas, depois de apenas um gole. Sabores experimentados apenas uma vez são guardados em algum ponto tão fundo da memória, que provavelmente passam em breve a ter mais relação com a imaginação, que qualquer experiência de fato vivida. Estranhamente, no entanto, sou capaz de reconhecer o mesmo exato gosto, o mesmo exato cheiro depois de anos e anos: por algum motivo que desconheço, meu paladar e meu olfato são imensamente superiores à minha capacidade racional de expressão: a essa necessidade de guardar em palavras pedaços antigos de mim.
O novo e a repetição não se excluem nem contradizem: somam-se, tornando absolutamente impossivel chegar mais perto do fim da lista interminavel de "afazeres para a vida": É como se eu percorresse sempre a metade do caminho que falta, já que cada novo espaço não elimina aquele nome, não passa ao próximo, mas torna-se uma vontade incessante de retorno. Cada espaço novo é vizinho de um outro espaço-tela de nome desconhecido, que possibilitaria combinações absolutamente novas da minha carne-tinta, e o número de novas superfícies é redondamente infinito! No entanto, os terrenos pelos quais passo por alguns instantes também se somam à lista de afazeres futuros: a repetição daqueles pequenos sabores, a retomada é como um reconhecimento de si mesmo, é como olhar-se no espelho depois de anos, é como a construção de um lar ilimitado.
E a casa, construida, física; faz-se aos poucos, do intervalo entre ir e ir, do conforto um pouco triste de desfazer malas, do preenchimento gradual de paredes com fotos de outras superfícies... que talvez permitam, no mínimo, outro cheiro para os pensamentos de sempre.
a caneta faz diferença
a caneta, lápis, lapiseira, azul, preta, cinza, ponta fina, 07,9,5... determina.
Papel, caderno, computador: panela ou frigideira, com tefau ou sem.
Tudo são telas.
Computador: o cotidiano mesmo mesmíssimo teclado todo dia ela faz tudo sempre igual, disposições absolutamente gastas, não há novas combinações entre as mesmíssimas teclas. Explico. Certa vez tomei emprestado o computador da minha mãe para escrever um email. Outra marca, teclado, material. Nesta mesma vez sentei-me também noutra posição, sobre outro colchão. O design das teclas (e para não soar por demais representante de vendas do senhor Steve), a textura do material sob meus dedos, a temperatura sobre minha coxa- que difere em graus da máquina com a qual habituei-me tão rapidamente- mostram-se parte do próprio corpo daquilo que se escreve. Transparece inevitavelmente a mudança, a re-disposição daquilo que se cria num suposto universo abstrato.
É como se, talvez em menor escala, eu pensasse em outra língua.
A idéia não é algo imaterial, expelido em letras através de um ser humano com mãos, e tinta a disposição. Idéias são confeccionadas e construídas do material sobre o qual são projetadas. Óleo sobre tela; pensamento sobre metal mais ou menos frio, mais ou menos liso, através de um corpo mais ou menos confortável, dobrado sobre uma superfície mais ou menos dura, quente, áspera ou lisa. Não há, começo a aceitar, independência ou autonomia do pensamento, nem do ser pensante. A mente como unidade geradora de organizações, produtora de idéias desvinculada e apoderada do próprio corpo, do espaço em torno, é uma ficção. E arrisco o exagero: ficção produtora de cisões esquizofrênicas, delírios megalomaníacos, que beiram, ao mesmo tempo constantemente abismos de depressão: a improdutividade.
A tela, superfície imediata estende-se: o que vejo pela janela, o peso excessivamente conhecido desse ar. E a percepção da mudança minusculamente significativa que o peso e o material de outra máquina tiveram sobre minhas palavras, espelha-se na minha necessidade constante de “novos ares”. O corpo é o mesmo aqui, que seria ao pousar na china, certo? Não, absolutamente não. Terreno daquilo que penso, ou mais ainda sinto, é parte da concepção de tudo o que sai de mim, dependente de fora, completamente dependente. Mudança de material: preciso escolher madeira hoje, depois me esforçarei para conseguir grandes planícies plásticas, para cores mais vivas... Ou menos.
A descoberta da absoluta materialidade das ideias e sentimentos, essa afirmação inevitavel da dependência que a figura tem de sua tela, a compreensão da importância e da determinação criada pela superfície, gera ainda outra imediata compreensão: A minha necessidade quase Sabínica de enfileirar planos de partida. Melhor: modelar situações inimaginadas, produzir cuidadosamente a possibilidade do sentimento de todos os sentimentos: "I never thought I´d be here".
Daí a necessidade do novo terreno: não a traição do antigo, mas a soma de outras superfícies, que possibilitem a criação de novas combinações para os mesmos signos emocionais.
Talvez contraditório perceber que apesar dessa sequência infinita de nomes novos para placas de estrada, meu apego à nova superfície é sempre quase imediato! Coleciono em poquíssimos dias, minutos, horas, uma lista quase fotográfica de características daquele lugar, criadoras de ligações emocionais usualmente cotidianas, nesse caso guardadas como absolutas, depois de apenas um gole. Sabores experimentados apenas uma vez são guardados em algum ponto tão fundo da memória, que provavelmente passam em breve a ter mais relação com a imaginação, que qualquer experiência de fato vivida. Estranhamente, no entanto, sou capaz de reconhecer o mesmo exato gosto, o mesmo exato cheiro depois de anos e anos: por algum motivo que desconheço, meu paladar e meu olfato são imensamente superiores à minha capacidade racional de expressão: a essa necessidade de guardar em palavras pedaços antigos de mim.
O novo e a repetição não se excluem nem contradizem: somam-se, tornando absolutamente impossivel chegar mais perto do fim da lista interminavel de "afazeres para a vida": É como se eu percorresse sempre a metade do caminho que falta, já que cada novo espaço não elimina aquele nome, não passa ao próximo, mas torna-se uma vontade incessante de retorno. Cada espaço novo é vizinho de um outro espaço-tela de nome desconhecido, que possibilitaria combinações absolutamente novas da minha carne-tinta, e o número de novas superfícies é redondamente infinito! No entanto, os terrenos pelos quais passo por alguns instantes também se somam à lista de afazeres futuros: a repetição daqueles pequenos sabores, a retomada é como um reconhecimento de si mesmo, é como olhar-se no espelho depois de anos, é como a construção de um lar ilimitado.
E a casa, construida, física; faz-se aos poucos, do intervalo entre ir e ir, do conforto um pouco triste de desfazer malas, do preenchimento gradual de paredes com fotos de outras superfícies... que talvez permitam, no mínimo, outro cheiro para os pensamentos de sempre.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
duas madrugadas morenas
Ter que ir embora, é ter que ir embora. A distânicia a percorrer, a urgência ou o tempo da viagem, são camadas finas de contratempo que se acumulam sobre a leve frase: ter que ir embora. Diferença de gênero, número, e grau: diferença nenhuma, na pele daquilo que se dá. Aquilo que se dá é ter que ir embora, é a madrugada morena de despedida.
Sobre a cabeça, sempre os aviões. Sobre, dentro, no entorno da cabeça os sempre eles aviões, de partida. A gente que vive de ir, vive assim, naquele friozinho insone depois da cama; daquele jeito em que acordar demora horas, e se acorda apenas no ar.
Duas madrugadas nos dois pés dum ano, escuros de desavisos, esperando gotas. As novidades de começo e de fim, planejadas ou não, são assim... como duas reticências só, à espera da terceira.
A gente que vive de ir, vive assim, colecionando madrugadas bolas-de-gude, que giram infinitamente em torno de si mesmas. Uma construção de passados nulos pra guardar de relíquia, algum bolso que eu nunca tive.
Minha primeira madrugada morena foi mesmo um casamento com aqueles braços fortes que me queriam. Me queriam assim mesmo como um arado, como um grande arado, o primeiro arado do primeiro homem, da primeira noite no início dos tempos. Na minha primeira madrugada morena, me foi lido o futuro em cartas dispostas entre as nossas pernas. As minhas por cima, e o chão é de um calor fevereiro, negando neves quaisquer. Um imenso começo, elevado a condição de existência, um traçado de planos e linhas futuras, completamente desamarradas uma da outra, soltas dentro dessa vontade imensa de não se despedir nunca, não tendo nunca se apresentado. Curto como um conto, do tamanho da nossa vida inteira. Amei por cinquenta anos: fizemos ali bodas de ouro, como no momento em que se casa, e que se ama pra toda a vida, até depois nunca nunca mais.
Bola-de-gude, minha madrugada que não se queria única. Mas é da sua natureza, e sua natureza saciada fala por si... torna-se inevitavel saber-se em paz, na sua unidade monosilábica. Dura algumas décadas de espera, e depois amadurece um momentinho pequeno, que sempre havia sabido.
A segunda madrugada morena foi de uma pequenina escuridão. Muito prazer, como é mesmo que se escreve o seu nome? O meu é aquele estirado ali ao lado, escrito em letras de... Mas nós pulamos as formalidades, os desinteresses, e os próprios passados todos. Ao contrário, sem votos nem esse tecido de planos doloridos coloridos da primeira. Por acaso estes braços me caem bem- disse. Seguir viagem, mudar de país... mas é como eu disse, há algo de profundamente idêntico nesses olhos que não dormirão. Há sempre um certo desespero em saber-se de leve à beira de tudo... tudo! Ali bem adiante, e a possibilidade de estar alucinando é grande, dado o adiantado da hora. Bobagens, minha filha, bobagens. O tecido das trocas é fino, e meus olhos se percebem de repente assim, expostos, imensamente desconhecidos. A desimportância e a leveza da tua brevidade, madrugada, me deixou assim, no desejo de te coroar, te eleger a mais bela, por singela e solta. Mas não tenho, dessa distância de passos, o poder de te guardar ainda acabada, pronta, una. A vigília daquele que vela é por demais bela, gêmea dos passados sublimes. Deixar-se ver adormecer, e ser desperta por outro, é a mais momentânea entrega, brincadeiras de olhos abertos do calor.
Mas ter que ir embora, é ter que ir embora. E nada se iguala à duçura leve de fruta que amadurece só uma, logo antes de já ser depois. Daí tua semelhança, madrugada morena de segunda viagem! Retorno ao início de tudo o que se perde, em novas camadas mais breves, mais leves, mais.
Sobre a cabeça, sempre os aviões. Sobre, dentro, no entorno da cabeça os sempre eles aviões, de partida. A gente que vive de ir, vive assim, naquele friozinho insone depois da cama; daquele jeito em que acordar demora horas, e se acorda apenas no ar.
Duas madrugadas nos dois pés dum ano, escuros de desavisos, esperando gotas. As novidades de começo e de fim, planejadas ou não, são assim... como duas reticências só, à espera da terceira.
A gente que vive de ir, vive assim, colecionando madrugadas bolas-de-gude, que giram infinitamente em torno de si mesmas. Uma construção de passados nulos pra guardar de relíquia, algum bolso que eu nunca tive.
Minha primeira madrugada morena foi mesmo um casamento com aqueles braços fortes que me queriam. Me queriam assim mesmo como um arado, como um grande arado, o primeiro arado do primeiro homem, da primeira noite no início dos tempos. Na minha primeira madrugada morena, me foi lido o futuro em cartas dispostas entre as nossas pernas. As minhas por cima, e o chão é de um calor fevereiro, negando neves quaisquer. Um imenso começo, elevado a condição de existência, um traçado de planos e linhas futuras, completamente desamarradas uma da outra, soltas dentro dessa vontade imensa de não se despedir nunca, não tendo nunca se apresentado. Curto como um conto, do tamanho da nossa vida inteira. Amei por cinquenta anos: fizemos ali bodas de ouro, como no momento em que se casa, e que se ama pra toda a vida, até depois nunca nunca mais.
Bola-de-gude, minha madrugada que não se queria única. Mas é da sua natureza, e sua natureza saciada fala por si... torna-se inevitavel saber-se em paz, na sua unidade monosilábica. Dura algumas décadas de espera, e depois amadurece um momentinho pequeno, que sempre havia sabido.
A segunda madrugada morena foi de uma pequenina escuridão. Muito prazer, como é mesmo que se escreve o seu nome? O meu é aquele estirado ali ao lado, escrito em letras de... Mas nós pulamos as formalidades, os desinteresses, e os próprios passados todos. Ao contrário, sem votos nem esse tecido de planos doloridos coloridos da primeira. Por acaso estes braços me caem bem- disse. Seguir viagem, mudar de país... mas é como eu disse, há algo de profundamente idêntico nesses olhos que não dormirão. Há sempre um certo desespero em saber-se de leve à beira de tudo... tudo! Ali bem adiante, e a possibilidade de estar alucinando é grande, dado o adiantado da hora. Bobagens, minha filha, bobagens. O tecido das trocas é fino, e meus olhos se percebem de repente assim, expostos, imensamente desconhecidos. A desimportância e a leveza da tua brevidade, madrugada, me deixou assim, no desejo de te coroar, te eleger a mais bela, por singela e solta. Mas não tenho, dessa distância de passos, o poder de te guardar ainda acabada, pronta, una. A vigília daquele que vela é por demais bela, gêmea dos passados sublimes. Deixar-se ver adormecer, e ser desperta por outro, é a mais momentânea entrega, brincadeiras de olhos abertos do calor.
Mas ter que ir embora, é ter que ir embora. E nada se iguala à duçura leve de fruta que amadurece só uma, logo antes de já ser depois. Daí tua semelhança, madrugada morena de segunda viagem! Retorno ao início de tudo o que se perde, em novas camadas mais breves, mais leves, mais.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Number 9
Hush, Dear, It´s Just a Metaphore
(first scrap of a dark tale, to be properly recreated by someone worthy, who could tell -with techinque- the noble tragedy of our humble aristocracy)
"On the day my best friend died, I could not get my copper clean."
I thought I had walked for three mountains, three valleys, crossed three rivers, and come to this particular light-post. I thought I was tired from this amazing all-night journey back and forth deep down the city halls. I leaned against the wall, the light-post, the patch of non-air behind my back. The tree was lined with christmas lights. White. And they waved, slowly lost focus. Am I drunk or dreaming?
In my hands, a bottle, or a phone, or a heavy heavy black-covered book. I wished I could throw up. Or wake up.
Were the lights white? The lights turned to red. A tree, wrapped in red christmas lights. There is nothing more morbid than red christmas lights, wrapped around the only tree, in a wide street, where there´s nothing.
The scenario is now different, although I know I have walked only five steps. One. Two. Three. Four. Five. Eyes fixed-transfixed on the cemment. I am alone inside an empty parking lot. Empty except for the millions of golden christmas balls in more corners than four and wait there are waiters and it´s a crowded fancy room, except that it´s an empty parking lot, and everything is made of cement and fence. The waiters carry around large round silver platters lined with small bits of food I cannot recognize. People eat, chat, chant I think about the weather, they all wear julery made from the daughter of Henry The..... I do not know them. I have never seen any of them. And they are mothers and fathers and grandparents and uncles and sisters and brothers of friends of mine, and I have never would never ever have wanted to see them. Waiters slowly slide through the crowd, as dancers in a faint unnoticeable coreography, and as they ice-skate the hall of parking spaces made of grey, I cannot see faces behind champagne. My stomach hurts. I wish I could wake up, or throw up. They all dress black, or is it mabe silver as the cement under my bear feet? The air of the summer night makes me sweat, and my feet are freezing. I observe my toes coil up and become bluish, grey.
His hair is red. He´s standing right in front of me, with his flaming orange sparkle of a head, and he wears a plaid shirt. And there is green in his plaid shirt. I ask myself if it´s become fashionable, or if he´s been dead for over twenty years. He walks up to me, wearing a glass of champagne. Wearing it, yes. As a mask. As if whispering, he talks to me in the only voice loud enough to be heard inside the parking lot:
-Something´s happened.
I stare.
-Something has happened. Here.
He offers me the champagne, and I can see a white pill dancing inside it. It is a christmas ornament, the nicest christmas ornament, I think.
I drink, and my thirst is suddenly aparent.
I look around at the relatives of my friends, whose faces I cannot see.
-Why are they here?- I´m beggining to feel uneasy.- Why are they here?!- my tone of desperation is not discrete. I cannot figure out their faces, I do not know their surnames.
- Why . are. they. here?!
He looks at his shoes, he looks at my cold bare feet, fighting the cement. He suddenly looks very worried.
- Where are our shoes?! - this time his is an ungernt whisper
- What?
- They will recognize your feet, where are your shoes?!
I have no idea. I try to remember shoes. I try to remember ever having worn shoes.
- Why are they here? - I plead. I look around once again, tring to find th right question, as if to a backwords sphynx. - What is this?!
He puts his hand over my shoulder. They all seem to wear silver, or grey, or maybe gold, or was is black? Was it all black and I had never seen black before?
He looks into my eyes, his is a look of deep concern, or maybe only left-over sadness from lunch.
- Something has happened.
I recognize one of the women. She is short, and I recognize her calves. The feeling of pieces falling into place and a lack of will to recognize anything and anyone fills me as water up to my nose, when finaly he speaks again and I breathe out:
- I saw her. - He says.- Yesterday. I saw her, I ran into her. She told me. She said... She said she was leaving to. To. She was leaving to change her face. She said, she said she would finally be beautifull.
My tears taste like scotch. I have always hated scotch, I would never in my entire life drink a drop of scotch, and here they are, and here they have filled my tears with dirty old scotch. I try to spit, and I bend as my stomach is torn with the throbbing pain I had felt only once before. I bend, but I know I cannot bend much, or they will see my feet. He holds me and I see the cement, lit up by the reflection of the golden balls.
- I´ve been trying to call her.- I tell him, in tears, as if pleading forgiveness.- I´ve tried to reach her, I´ve been trying to reach her, and she hasn´t picked up.
- There has been an accident.
I am raged - There was no fucking accident!
-Shut up- he whispers. They´ll hear you. Shut the fuck up!
- There was no fucking accident- I weep.- It was a choice.
The halucinogenous mixture of guilt, loss, pain and hatred should not be mixed with strong medicine. What have I taken? What was the pill you gave me? Was it antidepressants? I don´t take antidepressants! Whose antidepressants did you give me? this feeling is not mine! I want to throw up, or wake up.
They bring out a cake. A white enormous birthday cake filled with colorfull candles, and those things that sparkle, and amuse the little kids that pretend they are touching real fire. They all sing, or seem to. They smile, and laugh, and they all hold long candles, and white roses.
- What the hell is this? Why is there a cake? Why do they... -
I can´t speak. My stomach is again pulled ground-wise by the wrenching pain that suffocates old rich alcoholics that drink scotch. My words are muffled by tears and I cannot make out the shapes in front of me, he holds me while I vomit and bile colors the grey, dancing with the flames of the candles, and the ground reflections of the golden balls. His arms wrap around my back, I sob onto his shoulders.
- She was running- He said. - There´s been an accident. She was trying to escape, and. Well. They found her. I mean, they gave her the wrong ticket I mean they were helping her escape, except they weren´t. She was eaten by the pack, you see. She was escaping the wolves, only to fall into their nest.
- I´ve been tring to reach her. I guess she´s been keeping her phone on vibrate- My tone is casual, my voice almost doesn´t tremble.- I was wearing her shoes. I had borrowed her shoes and. And she had no shoes and she had no no way she was... I had been wearing her shoes. I hadn´t tried enough. I guess I was hoping she would never pick up.
A record player on the corner starts spinning in a very low volume and I recognize his tropical smiling voice.
- Don´t walk up to them. I don´t want them to see our feet.
I try to protest, I want to plead guilty and. He holds me. I look at him, I can almost imagine myself half-smiling:
- Second time, I guess. You and me, and this place. I´m not nearly dressed as properly. I had my Pink Floyd shirt on. The Wall. At seventeen you die from jumping out a window... At twenty three, I guess you die from... not.
- She was trying to run away from them, I guess. She was eaten by wolves, you know. It´s not her fault. It was a choice. And it... well, it wasn´t. They ate her, you see. The villagers. She cried for help, she said there were wolves, and the villagers you see, they ate her.
- The smell of this birthday cake... it´s making me naucious. I need to leave.
- Have a piece. - His voice´s changed
- No.
- It´s done. Have a piece. The sugar will make you better.
- No, let´s get out of here. I´m sick, let´s get out of here.
- Here. He wraps his hands around my back - here.
He takes me closer to the center of the sparkling black parking lot, where there is a table, and a white cake, with pink filling. I am naucious. I have never been so naucious.
- It was an accident, Have a piece.
- It was no accident.
- Have a piece. They won´t hurt you.
His shirt is not plaid anymore. His hair is not red anymore. I´ve lost him in the crowd. He has spoken, he´s been taken, I know. I try to run. My feet are exposed. My feet have always been exposed. I hate funerals, I hate christmas, and I want to throw up. There is no exit. She´d been trying to escape, and I had never said a word. He´d been trying to run and I had never said a word, I´d been trying to ignore, and I had never said a word. The cake tastes like flesh, and scotch tears.
(first scrap of a dark tale, to be properly recreated by someone worthy, who could tell -with techinque- the noble tragedy of our humble aristocracy)
"On the day my best friend died, I could not get my copper clean."
I thought I had walked for three mountains, three valleys, crossed three rivers, and come to this particular light-post. I thought I was tired from this amazing all-night journey back and forth deep down the city halls. I leaned against the wall, the light-post, the patch of non-air behind my back. The tree was lined with christmas lights. White. And they waved, slowly lost focus. Am I drunk or dreaming?
In my hands, a bottle, or a phone, or a heavy heavy black-covered book. I wished I could throw up. Or wake up.
Were the lights white? The lights turned to red. A tree, wrapped in red christmas lights. There is nothing more morbid than red christmas lights, wrapped around the only tree, in a wide street, where there´s nothing.
The scenario is now different, although I know I have walked only five steps. One. Two. Three. Four. Five. Eyes fixed-transfixed on the cemment. I am alone inside an empty parking lot. Empty except for the millions of golden christmas balls in more corners than four and wait there are waiters and it´s a crowded fancy room, except that it´s an empty parking lot, and everything is made of cement and fence. The waiters carry around large round silver platters lined with small bits of food I cannot recognize. People eat, chat, chant I think about the weather, they all wear julery made from the daughter of Henry The..... I do not know them. I have never seen any of them. And they are mothers and fathers and grandparents and uncles and sisters and brothers of friends of mine, and I have never would never ever have wanted to see them. Waiters slowly slide through the crowd, as dancers in a faint unnoticeable coreography, and as they ice-skate the hall of parking spaces made of grey, I cannot see faces behind champagne. My stomach hurts. I wish I could wake up, or throw up. They all dress black, or is it mabe silver as the cement under my bear feet? The air of the summer night makes me sweat, and my feet are freezing. I observe my toes coil up and become bluish, grey.
His hair is red. He´s standing right in front of me, with his flaming orange sparkle of a head, and he wears a plaid shirt. And there is green in his plaid shirt. I ask myself if it´s become fashionable, or if he´s been dead for over twenty years. He walks up to me, wearing a glass of champagne. Wearing it, yes. As a mask. As if whispering, he talks to me in the only voice loud enough to be heard inside the parking lot:
-Something´s happened.
I stare.
-Something has happened. Here.
He offers me the champagne, and I can see a white pill dancing inside it. It is a christmas ornament, the nicest christmas ornament, I think.
I drink, and my thirst is suddenly aparent.
I look around at the relatives of my friends, whose faces I cannot see.
-Why are they here?- I´m beggining to feel uneasy.- Why are they here?!- my tone of desperation is not discrete. I cannot figure out their faces, I do not know their surnames.
- Why . are. they. here?!
He looks at his shoes, he looks at my cold bare feet, fighting the cement. He suddenly looks very worried.
- Where are our shoes?! - this time his is an ungernt whisper
- What?
- They will recognize your feet, where are your shoes?!
I have no idea. I try to remember shoes. I try to remember ever having worn shoes.
- Why are they here? - I plead. I look around once again, tring to find th right question, as if to a backwords sphynx. - What is this?!
He puts his hand over my shoulder. They all seem to wear silver, or grey, or maybe gold, or was is black? Was it all black and I had never seen black before?
He looks into my eyes, his is a look of deep concern, or maybe only left-over sadness from lunch.
- Something has happened.
I recognize one of the women. She is short, and I recognize her calves. The feeling of pieces falling into place and a lack of will to recognize anything and anyone fills me as water up to my nose, when finaly he speaks again and I breathe out:
- I saw her. - He says.- Yesterday. I saw her, I ran into her. She told me. She said... She said she was leaving to. To. She was leaving to change her face. She said, she said she would finally be beautifull.
My tears taste like scotch. I have always hated scotch, I would never in my entire life drink a drop of scotch, and here they are, and here they have filled my tears with dirty old scotch. I try to spit, and I bend as my stomach is torn with the throbbing pain I had felt only once before. I bend, but I know I cannot bend much, or they will see my feet. He holds me and I see the cement, lit up by the reflection of the golden balls.
- I´ve been trying to call her.- I tell him, in tears, as if pleading forgiveness.- I´ve tried to reach her, I´ve been trying to reach her, and she hasn´t picked up.
- There has been an accident.
I am raged - There was no fucking accident!
-Shut up- he whispers. They´ll hear you. Shut the fuck up!
- There was no fucking accident- I weep.- It was a choice.
The halucinogenous mixture of guilt, loss, pain and hatred should not be mixed with strong medicine. What have I taken? What was the pill you gave me? Was it antidepressants? I don´t take antidepressants! Whose antidepressants did you give me? this feeling is not mine! I want to throw up, or wake up.
They bring out a cake. A white enormous birthday cake filled with colorfull candles, and those things that sparkle, and amuse the little kids that pretend they are touching real fire. They all sing, or seem to. They smile, and laugh, and they all hold long candles, and white roses.
- What the hell is this? Why is there a cake? Why do they... -
I can´t speak. My stomach is again pulled ground-wise by the wrenching pain that suffocates old rich alcoholics that drink scotch. My words are muffled by tears and I cannot make out the shapes in front of me, he holds me while I vomit and bile colors the grey, dancing with the flames of the candles, and the ground reflections of the golden balls. His arms wrap around my back, I sob onto his shoulders.
- She was running- He said. - There´s been an accident. She was trying to escape, and. Well. They found her. I mean, they gave her the wrong ticket I mean they were helping her escape, except they weren´t. She was eaten by the pack, you see. She was escaping the wolves, only to fall into their nest.
- I´ve been tring to reach her. I guess she´s been keeping her phone on vibrate- My tone is casual, my voice almost doesn´t tremble.- I was wearing her shoes. I had borrowed her shoes and. And she had no shoes and she had no no way she was... I had been wearing her shoes. I hadn´t tried enough. I guess I was hoping she would never pick up.
A record player on the corner starts spinning in a very low volume and I recognize his tropical smiling voice.
- Don´t walk up to them. I don´t want them to see our feet.
I try to protest, I want to plead guilty and. He holds me. I look at him, I can almost imagine myself half-smiling:
- Second time, I guess. You and me, and this place. I´m not nearly dressed as properly. I had my Pink Floyd shirt on. The Wall. At seventeen you die from jumping out a window... At twenty three, I guess you die from... not.
- She was trying to run away from them, I guess. She was eaten by wolves, you know. It´s not her fault. It was a choice. And it... well, it wasn´t. They ate her, you see. The villagers. She cried for help, she said there were wolves, and the villagers you see, they ate her.
- The smell of this birthday cake... it´s making me naucious. I need to leave.
- Have a piece. - His voice´s changed
- No.
- It´s done. Have a piece. The sugar will make you better.
- No, let´s get out of here. I´m sick, let´s get out of here.
- Here. He wraps his hands around my back - here.
He takes me closer to the center of the sparkling black parking lot, where there is a table, and a white cake, with pink filling. I am naucious. I have never been so naucious.
- It was an accident, Have a piece.
- It was no accident.
- Have a piece. They won´t hurt you.
His shirt is not plaid anymore. His hair is not red anymore. I´ve lost him in the crowd. He has spoken, he´s been taken, I know. I try to run. My feet are exposed. My feet have always been exposed. I hate funerals, I hate christmas, and I want to throw up. There is no exit. She´d been trying to escape, and I had never said a word. He´d been trying to run and I had never said a word, I´d been trying to ignore, and I had never said a word. The cake tastes like flesh, and scotch tears.
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
Doçuras do Cansaço
Ando querendo trocar de carteira. Não, espera. Ando querendo trocar... não pruma carteira melhor, nova. Ando querendo trocar de carteira, pruma carteira menor, pequena, minúscula, vazia, que quase suma. Ando querendo trocar de corpo. Prum corpo assim pequeno, minúsculo, vazio, que quase suma encolhido num ninho de edredom gigante vermelho. Durma. Ando querendo trocar de olhos. Pruns olhos daqueles que estão acordando, quando já é dia mas ainda não há sol. Pruns olhos que pisquem ao revés: abertos só por alguns segundos,só pra limpar e proteger um pouquinho o escuro.
Ando querendo trocar de amor. Prum amor assim pequeno, discreto, que quase nem exista. Prum amor assim bem infantil, de dar laranjas de presente, sentir vergonha de encostar os ombros. Prum amor que não se toque, que não quase não me toque, que olhe assim pra mim meio de longe meio de lado. Prum amor presente quieto pequenininho feito um bezouro.
Isso hoje, talvez amanhã. Depois ou voltar a querer uma imensidão desperta, uns olhos vivos em quase desespero, bile, sangue e suor, panos grandes, costuras fortes e complicações. Depois vou voltar q querer carne rija, sexo sedento, amor mordido absoluto prédios, volantes, berros do tamanho da cidade. Vou voltar a querer o espaço vasto dos goles, as voltas em volta dos desejos irreais, Bowie e as explosões astronômicas que não se originam em nada, em ninguém.
Depois de amanhã.
"fim da tarde, a terra cora, e a gente chora porque fim da tarde"
Ando querendo trocar de amor. Prum amor assim pequeno, discreto, que quase nem exista. Prum amor assim bem infantil, de dar laranjas de presente, sentir vergonha de encostar os ombros. Prum amor que não se toque, que não quase não me toque, que olhe assim pra mim meio de longe meio de lado. Prum amor presente quieto pequenininho feito um bezouro.
Isso hoje, talvez amanhã. Depois ou voltar a querer uma imensidão desperta, uns olhos vivos em quase desespero, bile, sangue e suor, panos grandes, costuras fortes e complicações. Depois vou voltar q querer carne rija, sexo sedento, amor mordido absoluto prédios, volantes, berros do tamanho da cidade. Vou voltar a querer o espaço vasto dos goles, as voltas em volta dos desejos irreais, Bowie e as explosões astronômicas que não se originam em nada, em ninguém.
Depois de amanhã.
"fim da tarde, a terra cora, e a gente chora porque fim da tarde"
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Domindo Magro
Equilíbrio de corpos humanos sobre comida. Muita comida.
-Senta aí que eu te explico. Nos trópicos, Natal não faz o menor sentido. E não faça essa cara de choro que bonitinha você ainda é criança. Passou. Pra mim passou faz tempo. Uns quase dois anos? Não talvez só um ano. Talvez 70. Sim, eu te explico. Não existe motivo racional ou irracional pra esse monte de luzinha ridícula. Não, espera, ok, as luzinhas amarelas não são tão patéticas assim. Mas não tem nada que pareça mais com um funeral de filme de terror do que a merda das árvores do Trianom com aquelas luzinhas azuis. Azuis, porra, por quê?! Azul não tem porra nenhuma a ver com essa porra toda. Alias, luzinha vermelha em árvore no meio da Faria Lima é cenário perfeito de prum filme tipo damianofilhododemodois dos anos 80. E pra falar a verdade seria mais legal. Desculpa, você ta um pouco chocada eu sei você esperava que eu dissesse que sinto um carinho especial por aquelas noites ridículas cheias de peru e aquele seu avô do outro lado da família que era delegado ou então as salas vazias onde dá pra ouvir bem demais as vozes que vêm das outras salas. Eu sempre fiquei nessas salas até achar que ia chorar de tanto nojo, ou de tanta falta de motivo pra chorar. Não, eu ia te explicar com motivos racionais, por a mais b, escuta: Natal só faz sentido em país em que é inverno, entende? Em país que neva até beleza, eu até acharia quase até bonitinho. Mas você não ta entendendo que isso não é um detalhe, que é de suma importância que quando você olha em volta não pareça uma merda quimérica tirada da cabeça de alguém com uma depressão irônica. Ácida. Essa cidade fica um puta lugar ácido no Natal. Porque não cabe, você entende? Não cabe esse monte de carro, esse monte de bola de natal, esse monte de veludo vermelho. Puta que pariu, achei o problema, é a merda do veludo vermelho! Isso que não entra pra mim. É um desconforto visual, saca? É que se tá um calor do caralho, veludo vermelho não é uma coisa reconfortante e carinhosa, que nem é pra essa merda de dia parecer, entendeu? É que se ta um puta dum calor que só da vontade de nadar e no máximo trepar, a porra do veludo vermelho é o maior emblema do desconforto que existe. É a rejeição mais pura, saca? É uma contradição tão gigante dentro de um suposto acolhimento. E o pior é que meu patriotismo babaca tem vontade de dizer: nossa cultura tropical não precisa de veludo vermelho, seus idiotas! Acolhimento (ou se você tinha vontade de chamar de amor pois chame que eu não ousaria jamais) não tem porra nenhuma a ver com essa necessidade invernal de criar umas cores e uns motivos pra juntar um bando de gente faminta. Gente faminta, essas massas de família de boca cheia, tudo gente faminta desesperada e só. É esse veludo vermelho desnecessário que mata. Mata a essência do que tem de bom nesse lugar. Porque a Europa é uma merda. Uma merda linda, toda bonita e agradavel, toda cheia de felicidade também, mas uma merda. Porque a gente não precisaria de nada disso, porque eu to parecendo uma versão mais ridícula do policarpo quaresma querendo instituir tupi e você não ta entendendo que essa não é a questão. É só incoerente, entende? É essa bosta do veludo vermelho que não tem nada a ver comigo. Com a gente, com nada. É essa bosta de veludo vermelho no meio dos postes da Paulista (como eu gosto daquele lugar quando ele ta real, porra), com umas frases tipo jesusdormeempazmeninobateosinojanasceujesusjesusjesus que eu não consigo suportar. Não é nada contra cristianismo, alias. Muito pelo contrário, alias, alias, alias, é quase uma vontade tradicionalista de merda que tudo seja morto até sobrar só a essência, só a semente, que acho que lá devia ter alguma coisa boa, de verdade. Acho que tinha alguma coisa sobre alguma coisa sobre alguma coisa sobre, nem precisaria falar e pa. Mas não tem mais, entende? Tem veludo vermelho, e é patético e é o emblema do desconforto em forma de bicho de pelúcia. Eu com vontade de tomar uns cinco litros de água gelada pra caralho, de ficar jogada debaixo do ventilador, e essa merda de papai noel me vem com braços abertos, renas e veludo vermelho. Que porra é uma rena pra mim alias? Puta que pariu... Que foi? Não, nada, tava pensando alto, sei la.
Tinha pensado em falar essas coisas, até. Tinha pensado que auto-literatura é ridículo. Tinha pensado depois que foda-se a literatura, isso aqui é só AUTO mesmo.
Uns poucos corpos humanos tentando se equilibrar em comida. Não é data festiva nem nada, é domingo. Sempre tive um amor secreto com esse banheiro, que tem essa janelinha. Eu vinha pra ficar sozinha. Sinto cheiro de 14 anos dentro dele. Sinto uma vontade de silêncio, porra... Uma vontade de agradar tão infantil, e fazer birra, e fazer silêncio.
Daí na porta chovia pra caralho. Chovia e é bonito pra caralho nessa cidade quando é verão e chove, e não sei porque tem que estragar isso com decoração. Ela abriu um guarda-chuva quase tão altivo quanto os seus cigarros. Tirei as sandálias. Menti que era pra elas não estragarem, que eram novas. Bem a minha cara não querer estragar sandálias novas que não são finas nem chiques nem porra nenhuma, que são pra estragar. Só pelo prazer da contradição. Mas era mentira, não era por isso. Era só pra andar descalço na chuva que é tão mais verdade que andar de sapato, e andar de sapato na chuva parece o mesmo desconforto que veludo vermelho nesse verão fodido. Então ela ficou preocupada, porque ela acha que estar confortavel e escorregar-bater-a-cara-no-chão-e-morrer são coisas muito próximas. Então ela apertou meu braço bastante pra que eu não ficasse confortavel, e portanto não escorregasse-batesse-a-cara-no-chão-e-morresse, porque ela me ama. E a gente andou debaixo do guarda-chuva até o portão. E pela primeira vez no dia alguma coisa era muito feliz, e eram os musguinhos embaixo dos meus pés, veludo verde molhado, confortavel e gelado, que nem era pra ser porque é verão e eu só queria me encher de água, e respirar toda a chva do hemisfério. E olhar pra baixo e ver meus pés e os sapatos dela, felicidade meio estúpida de descobrir o que a gente já sabe. Tão longe, diferente. Era só olhar pra mim no espelho, ficar feliz e acabou. Veludo verde de musguinho, assim, meio infantil, bom pra caralho.
-Senta aí que eu te explico. Nos trópicos, Natal não faz o menor sentido. E não faça essa cara de choro que bonitinha você ainda é criança. Passou. Pra mim passou faz tempo. Uns quase dois anos? Não talvez só um ano. Talvez 70. Sim, eu te explico. Não existe motivo racional ou irracional pra esse monte de luzinha ridícula. Não, espera, ok, as luzinhas amarelas não são tão patéticas assim. Mas não tem nada que pareça mais com um funeral de filme de terror do que a merda das árvores do Trianom com aquelas luzinhas azuis. Azuis, porra, por quê?! Azul não tem porra nenhuma a ver com essa porra toda. Alias, luzinha vermelha em árvore no meio da Faria Lima é cenário perfeito de prum filme tipo damianofilhododemodois dos anos 80. E pra falar a verdade seria mais legal. Desculpa, você ta um pouco chocada eu sei você esperava que eu dissesse que sinto um carinho especial por aquelas noites ridículas cheias de peru e aquele seu avô do outro lado da família que era delegado ou então as salas vazias onde dá pra ouvir bem demais as vozes que vêm das outras salas. Eu sempre fiquei nessas salas até achar que ia chorar de tanto nojo, ou de tanta falta de motivo pra chorar. Não, eu ia te explicar com motivos racionais, por a mais b, escuta: Natal só faz sentido em país em que é inverno, entende? Em país que neva até beleza, eu até acharia quase até bonitinho. Mas você não ta entendendo que isso não é um detalhe, que é de suma importância que quando você olha em volta não pareça uma merda quimérica tirada da cabeça de alguém com uma depressão irônica. Ácida. Essa cidade fica um puta lugar ácido no Natal. Porque não cabe, você entende? Não cabe esse monte de carro, esse monte de bola de natal, esse monte de veludo vermelho. Puta que pariu, achei o problema, é a merda do veludo vermelho! Isso que não entra pra mim. É um desconforto visual, saca? É que se tá um calor do caralho, veludo vermelho não é uma coisa reconfortante e carinhosa, que nem é pra essa merda de dia parecer, entendeu? É que se ta um puta dum calor que só da vontade de nadar e no máximo trepar, a porra do veludo vermelho é o maior emblema do desconforto que existe. É a rejeição mais pura, saca? É uma contradição tão gigante dentro de um suposto acolhimento. E o pior é que meu patriotismo babaca tem vontade de dizer: nossa cultura tropical não precisa de veludo vermelho, seus idiotas! Acolhimento (ou se você tinha vontade de chamar de amor pois chame que eu não ousaria jamais) não tem porra nenhuma a ver com essa necessidade invernal de criar umas cores e uns motivos pra juntar um bando de gente faminta. Gente faminta, essas massas de família de boca cheia, tudo gente faminta desesperada e só. É esse veludo vermelho desnecessário que mata. Mata a essência do que tem de bom nesse lugar. Porque a Europa é uma merda. Uma merda linda, toda bonita e agradavel, toda cheia de felicidade também, mas uma merda. Porque a gente não precisaria de nada disso, porque eu to parecendo uma versão mais ridícula do policarpo quaresma querendo instituir tupi e você não ta entendendo que essa não é a questão. É só incoerente, entende? É essa bosta do veludo vermelho que não tem nada a ver comigo. Com a gente, com nada. É essa bosta de veludo vermelho no meio dos postes da Paulista (como eu gosto daquele lugar quando ele ta real, porra), com umas frases tipo jesusdormeempazmeninobateosinojanasceujesusjesusjesus que eu não consigo suportar. Não é nada contra cristianismo, alias. Muito pelo contrário, alias, alias, alias, é quase uma vontade tradicionalista de merda que tudo seja morto até sobrar só a essência, só a semente, que acho que lá devia ter alguma coisa boa, de verdade. Acho que tinha alguma coisa sobre alguma coisa sobre alguma coisa sobre, nem precisaria falar e pa. Mas não tem mais, entende? Tem veludo vermelho, e é patético e é o emblema do desconforto em forma de bicho de pelúcia. Eu com vontade de tomar uns cinco litros de água gelada pra caralho, de ficar jogada debaixo do ventilador, e essa merda de papai noel me vem com braços abertos, renas e veludo vermelho. Que porra é uma rena pra mim alias? Puta que pariu... Que foi? Não, nada, tava pensando alto, sei la.
Tinha pensado em falar essas coisas, até. Tinha pensado que auto-literatura é ridículo. Tinha pensado depois que foda-se a literatura, isso aqui é só AUTO mesmo.
Uns poucos corpos humanos tentando se equilibrar em comida. Não é data festiva nem nada, é domingo. Sempre tive um amor secreto com esse banheiro, que tem essa janelinha. Eu vinha pra ficar sozinha. Sinto cheiro de 14 anos dentro dele. Sinto uma vontade de silêncio, porra... Uma vontade de agradar tão infantil, e fazer birra, e fazer silêncio.
Daí na porta chovia pra caralho. Chovia e é bonito pra caralho nessa cidade quando é verão e chove, e não sei porque tem que estragar isso com decoração. Ela abriu um guarda-chuva quase tão altivo quanto os seus cigarros. Tirei as sandálias. Menti que era pra elas não estragarem, que eram novas. Bem a minha cara não querer estragar sandálias novas que não são finas nem chiques nem porra nenhuma, que são pra estragar. Só pelo prazer da contradição. Mas era mentira, não era por isso. Era só pra andar descalço na chuva que é tão mais verdade que andar de sapato, e andar de sapato na chuva parece o mesmo desconforto que veludo vermelho nesse verão fodido. Então ela ficou preocupada, porque ela acha que estar confortavel e escorregar-bater-a-cara-no-chão-e-morrer são coisas muito próximas. Então ela apertou meu braço bastante pra que eu não ficasse confortavel, e portanto não escorregasse-batesse-a-cara-no-chão-e-morresse, porque ela me ama. E a gente andou debaixo do guarda-chuva até o portão. E pela primeira vez no dia alguma coisa era muito feliz, e eram os musguinhos embaixo dos meus pés, veludo verde molhado, confortavel e gelado, que nem era pra ser porque é verão e eu só queria me encher de água, e respirar toda a chva do hemisfério. E olhar pra baixo e ver meus pés e os sapatos dela, felicidade meio estúpida de descobrir o que a gente já sabe. Tão longe, diferente. Era só olhar pra mim no espelho, ficar feliz e acabou. Veludo verde de musguinho, assim, meio infantil, bom pra caralho.
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