mordida de pêssego pra ver se forra a camada a cimentar de teoria obrigatória, visceral, deliciosa, e mortalmente diária.
nunca estou escrevendo quando escrevo. Quase sempre dirigindo. Começo uma corrida sem respirar pra ver se não me perco, mas em casa desidealizo, e aí então às favas as palavras e as coisas. Todas tão inteiras. E dá uma fome do tamanho de mim. Uma fome de dizer, pra dentro e pra fora, de comer todas as nectarinas e pêssegos do mundo. Se eu fosse digna de estudo, tentariam descobrir a metáfora... mas já me esqueci. E acho muito cômico, como criança perdendo a frase na metade. Não tinha importância, e é essa a graça.
então fico no sobre-aviso a mim. Warning: não estou escrevendo.
teoria platônica, porque as paixões que Ana me causa não permitem pensamento reto de nenhuma espécie. E tenho que fugir da biblioteca, porque não pode entrar em combustão, nem começar a chorar na biblioteca (boys don´t cry at the library), em cima do livro que eu devia estar estudando e não deglutindo, desarmando, descabelando, vestindo, amando, fermentando, re-gestando, sorvendo, lambendo, cozendo, umedecendo, descabendo, cochichando, gargarejando e sendo.
Fujo e desteorizo, tentada e incontrolada. Não foi minha culpa. Tenho raiva dela a ponto de me dar tesão pela tentação de amá-la e incompreendê-la na sua infinita simplicidade que eu poderia muito bem ter escrito, porque é exatamente-me. Uma admiração do tamanho de um omicídio.
rasgo, transgressora clandestina um pedaço do caderno-todo-certinho fingindo que ninguém me vê:
Toda vez que eu releio Ana C dá essa sensação que mensagem de texto é poesia, uma vontade de levantar e gritar e rasgasr o mundo em 60 pedaços. Rasgar na fibra do mundo uma grande vagina, um sorriso de pé. E um abrir de braços que ninguém nessa biblioteca ia entender, mas ia dar pra respirar muito. Gastar um rasgo imenso e gritar "Eu Te Amo!", com um grito setentista quase sem destinatário que chora e ri de esplêndidos explêndidos berros. "eu te amo" e você não precisa me amar de volta, só precisa mesmo me querer bem.
e ler minhas cartas.
Gasgar um rasgo imenso e gritar "Eu Te Amo!", com um grito setentista quase sem destinatário
um destinatário passado, repassado antigo, scorso, mal-passado do ponto a ponto de não ter mais pedaço de gente ali no fim daquele fio de barbante-telefone que cruza um oceano inteiro. Acaba o outrolado, passa o destinatário passado num trem velho, e fica o "eu te amo", que nem brigadeiro que sobrou da festa. E eu estou mesmo afim de dar o brigadeiro que sobrou da festa no dia seguinte prum algum anti-lobo anti-príncipe que soubesseriará nada de novo, o endereço de casa, e passa de manhã, na manhã do dia seguinte. Aguardo.
quando danço mal, de manhã, quando tango errado porque ainda prendo-me em pernas e erro o abraço, morro de vontade de chorar. e daí passa. Eu não gosto mesmo de acabar, fico deixando esse e que começa-me
quarta-feira, 30 de março de 2011
domingo, 13 de março de 2011
O poeta é um amador
é um rascunho, mas me importa, me interessa:
Literatura é arte? Era provavelmente a pergunta de uma pré-adolescente, ou de um arte-educador sem originalidade, tentando criar conversas pseudo-espontâneas com o público de uma das obras de uma exposição de artes visuais, que consistia num poema escrito em letras supostamente brilhantes em uma grande parede. Talvez ela fosse eu. A pergunta (tendo ouvido, ou feito -porque afinal quando se faz uma pergunta, tomando-se um certo cuidado, acaba-se logo em seguida por ouvi-la-) a pergunta me soou imensamente estúpida. O que mais seria literatura se não arte? Afinal ela não está entre as tais sete, listada, catalogada, devidamente ordenada e enclausurada? Pois bem! E então, se literatura é de fato arte, como me disse a dona Carminha, minha professora da terceira série; o escritor é um artista. Certo?
Acontece então que, ao pensar na resposta aparentemente óbvia, me deparei com um seríssimo problema. Não sei ainda afirmar se é um problema nacional, ou se chega a atingir dimensões mundiais, mas suas conseqüências são, a meu ver, socialmente gravíssimas! (Faça-me o leitor o favor amável de ignorar o tom irônico com que meus dedos insistiram em redigir esses pensamentos. Conseqüência tola e infantil da reação emotiva que me causa o tópico) Ao que interessa: O gravíssimo problema ao qual me refiro é o fato que... não, o escritor aparentemente não é um artista. O escritor é advogado, desembargador, dona de casa, etc etc etc.
O que eu insisto em me perguntar é: O que há na nossa sociedade brasileira que ainda nos faz ver a atividade do escritor como atividade amadora, desvinculada de sua profissão? Sim, pois bem, há dentre nós tantos escritores renomados, valorizados até exclusivamente por sua escrita, que jamais sequer tocaram num processo, pisaram num tribunal, ou exerceram qualquer que fosse a profissão determinada por sua formação. E a estes chamamos escritores. Nós leitores os chamamos escritores. Nós críticos os chamamos escritores. Mas burocraticamente, seus diplomas, os dados fiscais, ou qualquer cazzo que importe em termos de documentos formais ligados à universidade, os chamam ainda advogados, matemáticos, dentistas, eu sei lá.
Não, acalmem-se, não estou de forma alguma tentando dar um valor desnecessário e definitivamente datado à tal famigerada graduação. Uma das profissionais que mais admiro é formada em artes cênicas, e leciona filosofia; enquanto outras de formação em cinema e comunicações exercem a psicanálise, e vice versa, os exemplos são infinitos, e vêm crescendo graças a não sei bem que deidade da tal “interdisciplinariedade”. Entretanto me parece significativo o fato de não termos um curso superior para formar escritores. Está bem, meu conhecimento é de fato muitíssimo restrito para estender essa afirmação para além do meu pequeno círculo de convívio. Pois bem, tomemos como exemplo apenas a tão renomada Universidade de São Paulo. Determinando-se que literatura é arte, imaginaríamos, portanto, que na ECA, Escola de Comunicação e Artes da USP, haveria um prédio, ou ao menos o currículo de um curso reservado à milenar arte literária. A arte de Homero, afinal! O ator, o roteirista, o designer gráfico, o diretor de teatro, TV, cinema, o pintor, o escultor, o publicitário, e veja bem até o biblioteconomista têm seu curso, com disciplinas obrigatórias e optativas, vagas limitadas e dificuldade xis ou y pra passar no vestibular da ECA. Não estou esquecendo os dramaturgos, também habilitados pela ECA. (Além desse detalhe não amenizar a questão, a meu ver, a torna mais grave, já que o dramaturgo é um grupo muito específico dentro do que costumamos chamar escritores.) E tentemos buscar fora da Escola de Comunicação e Artes, então.
Qualquer um que já tenha passado pelo tal “ciclo básico” (primeiro ano) da Letras, na FFLCH, dirá que se há algo que se aprende em relação a uma produção própria de talvez-possível-literatura na faculdade, é que ela deve ser inteiramente descartada e desconsiderada. O que aprendemos logo de cara, é que aquilo que fazem os grandes, a quem tentamos romanticamente imitar aos 14, 15, 16 anos, é imensamente mais complexo, magnânimo, incrível e inatingível do que já imaginávamos. É o grande fenômeno writter´s block em massa de todos os pós-adolescentes recém saídos do mundo do colegial ou do cursinho, que aspiraram algum dia estudar literatura, para fazer literatura.
Honestamente, acho esse choque inicial muito positivo, e extremamente necessário. Talvez um tapa na cara não faça de fato mal para começar a olhar para a arte que se quer fazer com outros olhos, menos ingênuos. Seria sim um absurdo julgar categoricamente a literatura dos diários adolescentes como não-literatura, e a discussão do que é ou não é arte, não é a que interessa no momento (apesar de ter começado o texto justamente com uma pergunta análoga, mas isso é apenas um recurso de uma não-escritora para introduzir aos seus não-leitores uma discussão já tão começada e recomeçada que não parece ter começo) Pois bem, acho sim que esse bloqueio inicial dos alunos de primeiro ano, saindo fresquinhos do forno, é algo necessário. Afinal se concordarmos (e eu concordo) com Valery, que todo escritor deve ser também crítico; talvez o primeiro passo seja de fato o questionamento daquilo que se pretendia como futuro escritor. Pode ser tradicionalismo meu, mas acredito que uma boa dose de humildade perante o caminho que se pretende trilhar (seja na arte, ou numa empreitada de dirigir 20 horas seguidas numa estrada de mão única, por exemplo), não vá mal a ninguém.
Entretanto, essa dose inicial de sentimento do sublime perante A Literatura, que vive o aspirante a escritor cursando a faculdade de Letras da USP, ao invés de se tornar combustível para estudo, pesquisa, tentativa e erro e erro e erro e erro; acaba tornando-se silêncio absoluto, que beira o trauma. Talvez exagere, mas apenas no tom, porque o efeito de fato é visível, paupavel, sentido quase no ar. Aquilo que poderia ter se tornado terreno de exploração, crítica, estudo para uma produção própria acaba se transformando em quintal baldio, humildade subvertida em auto-depreciação. Acho de fato uma pena que a instituição de ensino, ao invés de incentivar uma produção consciente, dotada da possibilidade de estudo e crítica simultâneos à produção literária, incentive apenas a forma acadêmica, a teorização, a crítica. E de preferência a crítica a tudo aquilo que já tenha sido criticado e re-criticado, canonizado, de forma que o aluno forme-se um excelente organizador de fortuna crítica, mestre em compreender minuciosamente apenas aquilo que já foi catalogado por outros, maiores que ele.
Sim, poderia resumir minha crítica ao fato que a faculdade que curso (há tanto tempo que já acredito poder falar de um lugar quase de fora) não possui nenhuma espécie de disciplina ligada à produção de literatura, à chamada por alguns cursos livres de “escrita criativa”, à produção própria de literatura do aluno. Mas isso é apenas um detalhe, ou melhor, uma conseqüência da grande questão. O que é que se preenche no campo “profissão” no formulário do dentista, quando se é graduado em Letras? Literato? Professor? Crítico? Duvido que alguém, por simples lógica, preencha “escritor”. Não, a Letras não forma escritores, como a Faculdade de Artes Cênicas forma “atores”, “dramaturgos”, “diretores de teatro” ou como a Poli forma “engenheiros”.
Mais uma vez gostaria de reiterar: talvez uma formação de escritor não fosse a melhor escolha para um indivíduo que desejasse com toda sua mais profunda paixão dedicar-se à literatura; assim como não necessariamente é a faculdade de Artes Visuais que de fato forma um artista plástico. A questão aqui levantada não é a melhor ou mais adequada (que terrível expressão) forma de se aprender ou desenvolver uma determinada atividade, artística ou não. A questão é o motivo e as conseqüências do fato que aparentemente, academicamente e institucionalmente, o escritor ainda é colocado num lugar de amador; ou mais problemático que isso, de gênio, dono de um conhecimento individual e impossível de ser compartilhado.
A meu ver, uma das difíceis conseqüências desse lugar distanciado da figura do escritor, é a distância entre a crítica e a literatura. Aprendemos a desvalorizar com os melhores e mais embasados argumentos, grande parte da literatura que surge contemporaneamente, da literatura bem recebida pela Folha de São Paulo, da literatura das vitrines da Livraria da Vila, dos Best-sellers. Nós, da Letras, criticamos ascépticos cada um dos recém auto-denominados escritores por sua falta de profundidade, interesse, matéria “artística”. A prática e a teoria estão mesmo tão distantes? Sou a primeira a meter o dedo na publicação alheia, na palestra supostamente realizada para discutir processo criativo, em que acaba por se dizer que é este um processo “muito pessoal”, “intransferível”, “inexplicável”, e se mantém o autor num lugar intocável, de quem no fundo não tem nada a dizer. Sou também a primeira a reclamar a falta de consciência crítica, do rigor ou do simples interesse de tanta literatura feita por aí. Sinto raiva da raiva ao crítico, entro na dança e sinto raiva da consciência pouco pesada de tantos que parecem escrever sem ler. Escreveu, não leu... Mas a ordem é inversa. Nem todo escritor deve ser crítico? Nem todo crítico precisa ser escritor. Mas a serviço de quê está esse muro acadêmico? Ou melhor, a serviço de quê está o não-lugar acadêmico vivido pelo nosso amigo fantasma escritor?
Por quê acredita-se que se torne um melhor músico aquele que estuda música, e um melhor ator aquele que estuda (inclusive na sua teoria e história) o teatro; mas não se associa o estudo da literatura à boa produção literária? Não quero passar uma impressão conservadora que determina previamente que o bom escritor será o estudioso de literatura (isso seria inclusive a meu ver uma afirmação dura e errônea), apenas questionar o por quê do distanciamento tão imenso entre a crítica, a teoria, e o fazer literário. É como se crítico e escritor dividissem de forma sagrada um trabalho que toca a ambos como espécie de time, mas no qual é expressamente proibido a um fazer o trabalho do outro.
É de fato uma curiosidade levemente preocupada o que me move nessa reflexão. Não tenho ainda (e me pareceria estranho ter) hipóteses bem embasadas para comprovar, teorias a argumentar. Resta-me apenas essa vontade de diálogo a respeito, essa necessidade de compreender quais são as implicações desse lugar isolado no qual foi metida a figura ranzinza e solitária, essa espécie de gênio de talento inexplicável não “ensinavel”, no qual francamente não acredito. Se tantos artistas reconhecidos a menos tempo na história que o escritor, lutaram por um espaço acadêmico, por um lugar de troca e formação, por não ter mais o glamour e o peso das artes ditas dons que se nasce possuindo, aprende sozinho, aprende fazendo... A serviço de quê está esse afastamento da arte da escrita de sua teoria, de sua crítica, de seu estudo? A serviço de quê formamos críticos e teóricos com máscaras estereotípicas de frustrados e amargos, prontos a detonar seus inimigos artistas incompreendidos, tantas vezes cobrados justamente na sua falta de diálogo com a teoria?
Me incomodam profundamente tanto a imagem estereotípica do crítico mal amado e amargurado, quanto do escritor gênio incompreendido e inatingível. Me parece que a ambos falta a liberdade de ser, ao menos por vezes, justamente o outro.
Literatura é arte? Era provavelmente a pergunta de uma pré-adolescente, ou de um arte-educador sem originalidade, tentando criar conversas pseudo-espontâneas com o público de uma das obras de uma exposição de artes visuais, que consistia num poema escrito em letras supostamente brilhantes em uma grande parede. Talvez ela fosse eu. A pergunta (tendo ouvido, ou feito -porque afinal quando se faz uma pergunta, tomando-se um certo cuidado, acaba-se logo em seguida por ouvi-la-) a pergunta me soou imensamente estúpida. O que mais seria literatura se não arte? Afinal ela não está entre as tais sete, listada, catalogada, devidamente ordenada e enclausurada? Pois bem! E então, se literatura é de fato arte, como me disse a dona Carminha, minha professora da terceira série; o escritor é um artista. Certo?
Acontece então que, ao pensar na resposta aparentemente óbvia, me deparei com um seríssimo problema. Não sei ainda afirmar se é um problema nacional, ou se chega a atingir dimensões mundiais, mas suas conseqüências são, a meu ver, socialmente gravíssimas! (Faça-me o leitor o favor amável de ignorar o tom irônico com que meus dedos insistiram em redigir esses pensamentos. Conseqüência tola e infantil da reação emotiva que me causa o tópico) Ao que interessa: O gravíssimo problema ao qual me refiro é o fato que... não, o escritor aparentemente não é um artista. O escritor é advogado, desembargador, dona de casa, etc etc etc.
O que eu insisto em me perguntar é: O que há na nossa sociedade brasileira que ainda nos faz ver a atividade do escritor como atividade amadora, desvinculada de sua profissão? Sim, pois bem, há dentre nós tantos escritores renomados, valorizados até exclusivamente por sua escrita, que jamais sequer tocaram num processo, pisaram num tribunal, ou exerceram qualquer que fosse a profissão determinada por sua formação. E a estes chamamos escritores. Nós leitores os chamamos escritores. Nós críticos os chamamos escritores. Mas burocraticamente, seus diplomas, os dados fiscais, ou qualquer cazzo que importe em termos de documentos formais ligados à universidade, os chamam ainda advogados, matemáticos, dentistas, eu sei lá.
Não, acalmem-se, não estou de forma alguma tentando dar um valor desnecessário e definitivamente datado à tal famigerada graduação. Uma das profissionais que mais admiro é formada em artes cênicas, e leciona filosofia; enquanto outras de formação em cinema e comunicações exercem a psicanálise, e vice versa, os exemplos são infinitos, e vêm crescendo graças a não sei bem que deidade da tal “interdisciplinariedade”. Entretanto me parece significativo o fato de não termos um curso superior para formar escritores. Está bem, meu conhecimento é de fato muitíssimo restrito para estender essa afirmação para além do meu pequeno círculo de convívio. Pois bem, tomemos como exemplo apenas a tão renomada Universidade de São Paulo. Determinando-se que literatura é arte, imaginaríamos, portanto, que na ECA, Escola de Comunicação e Artes da USP, haveria um prédio, ou ao menos o currículo de um curso reservado à milenar arte literária. A arte de Homero, afinal! O ator, o roteirista, o designer gráfico, o diretor de teatro, TV, cinema, o pintor, o escultor, o publicitário, e veja bem até o biblioteconomista têm seu curso, com disciplinas obrigatórias e optativas, vagas limitadas e dificuldade xis ou y pra passar no vestibular da ECA. Não estou esquecendo os dramaturgos, também habilitados pela ECA. (Além desse detalhe não amenizar a questão, a meu ver, a torna mais grave, já que o dramaturgo é um grupo muito específico dentro do que costumamos chamar escritores.) E tentemos buscar fora da Escola de Comunicação e Artes, então.
Qualquer um que já tenha passado pelo tal “ciclo básico” (primeiro ano) da Letras, na FFLCH, dirá que se há algo que se aprende em relação a uma produção própria de talvez-possível-literatura na faculdade, é que ela deve ser inteiramente descartada e desconsiderada. O que aprendemos logo de cara, é que aquilo que fazem os grandes, a quem tentamos romanticamente imitar aos 14, 15, 16 anos, é imensamente mais complexo, magnânimo, incrível e inatingível do que já imaginávamos. É o grande fenômeno writter´s block em massa de todos os pós-adolescentes recém saídos do mundo do colegial ou do cursinho, que aspiraram algum dia estudar literatura, para fazer literatura.
Honestamente, acho esse choque inicial muito positivo, e extremamente necessário. Talvez um tapa na cara não faça de fato mal para começar a olhar para a arte que se quer fazer com outros olhos, menos ingênuos. Seria sim um absurdo julgar categoricamente a literatura dos diários adolescentes como não-literatura, e a discussão do que é ou não é arte, não é a que interessa no momento (apesar de ter começado o texto justamente com uma pergunta análoga, mas isso é apenas um recurso de uma não-escritora para introduzir aos seus não-leitores uma discussão já tão começada e recomeçada que não parece ter começo) Pois bem, acho sim que esse bloqueio inicial dos alunos de primeiro ano, saindo fresquinhos do forno, é algo necessário. Afinal se concordarmos (e eu concordo) com Valery, que todo escritor deve ser também crítico; talvez o primeiro passo seja de fato o questionamento daquilo que se pretendia como futuro escritor. Pode ser tradicionalismo meu, mas acredito que uma boa dose de humildade perante o caminho que se pretende trilhar (seja na arte, ou numa empreitada de dirigir 20 horas seguidas numa estrada de mão única, por exemplo), não vá mal a ninguém.
Entretanto, essa dose inicial de sentimento do sublime perante A Literatura, que vive o aspirante a escritor cursando a faculdade de Letras da USP, ao invés de se tornar combustível para estudo, pesquisa, tentativa e erro e erro e erro e erro; acaba tornando-se silêncio absoluto, que beira o trauma. Talvez exagere, mas apenas no tom, porque o efeito de fato é visível, paupavel, sentido quase no ar. Aquilo que poderia ter se tornado terreno de exploração, crítica, estudo para uma produção própria acaba se transformando em quintal baldio, humildade subvertida em auto-depreciação. Acho de fato uma pena que a instituição de ensino, ao invés de incentivar uma produção consciente, dotada da possibilidade de estudo e crítica simultâneos à produção literária, incentive apenas a forma acadêmica, a teorização, a crítica. E de preferência a crítica a tudo aquilo que já tenha sido criticado e re-criticado, canonizado, de forma que o aluno forme-se um excelente organizador de fortuna crítica, mestre em compreender minuciosamente apenas aquilo que já foi catalogado por outros, maiores que ele.
Sim, poderia resumir minha crítica ao fato que a faculdade que curso (há tanto tempo que já acredito poder falar de um lugar quase de fora) não possui nenhuma espécie de disciplina ligada à produção de literatura, à chamada por alguns cursos livres de “escrita criativa”, à produção própria de literatura do aluno. Mas isso é apenas um detalhe, ou melhor, uma conseqüência da grande questão. O que é que se preenche no campo “profissão” no formulário do dentista, quando se é graduado em Letras? Literato? Professor? Crítico? Duvido que alguém, por simples lógica, preencha “escritor”. Não, a Letras não forma escritores, como a Faculdade de Artes Cênicas forma “atores”, “dramaturgos”, “diretores de teatro” ou como a Poli forma “engenheiros”.
Mais uma vez gostaria de reiterar: talvez uma formação de escritor não fosse a melhor escolha para um indivíduo que desejasse com toda sua mais profunda paixão dedicar-se à literatura; assim como não necessariamente é a faculdade de Artes Visuais que de fato forma um artista plástico. A questão aqui levantada não é a melhor ou mais adequada (que terrível expressão) forma de se aprender ou desenvolver uma determinada atividade, artística ou não. A questão é o motivo e as conseqüências do fato que aparentemente, academicamente e institucionalmente, o escritor ainda é colocado num lugar de amador; ou mais problemático que isso, de gênio, dono de um conhecimento individual e impossível de ser compartilhado.
A meu ver, uma das difíceis conseqüências desse lugar distanciado da figura do escritor, é a distância entre a crítica e a literatura. Aprendemos a desvalorizar com os melhores e mais embasados argumentos, grande parte da literatura que surge contemporaneamente, da literatura bem recebida pela Folha de São Paulo, da literatura das vitrines da Livraria da Vila, dos Best-sellers. Nós, da Letras, criticamos ascépticos cada um dos recém auto-denominados escritores por sua falta de profundidade, interesse, matéria “artística”. A prática e a teoria estão mesmo tão distantes? Sou a primeira a meter o dedo na publicação alheia, na palestra supostamente realizada para discutir processo criativo, em que acaba por se dizer que é este um processo “muito pessoal”, “intransferível”, “inexplicável”, e se mantém o autor num lugar intocável, de quem no fundo não tem nada a dizer. Sou também a primeira a reclamar a falta de consciência crítica, do rigor ou do simples interesse de tanta literatura feita por aí. Sinto raiva da raiva ao crítico, entro na dança e sinto raiva da consciência pouco pesada de tantos que parecem escrever sem ler. Escreveu, não leu... Mas a ordem é inversa. Nem todo escritor deve ser crítico? Nem todo crítico precisa ser escritor. Mas a serviço de quê está esse muro acadêmico? Ou melhor, a serviço de quê está o não-lugar acadêmico vivido pelo nosso amigo fantasma escritor?
Por quê acredita-se que se torne um melhor músico aquele que estuda música, e um melhor ator aquele que estuda (inclusive na sua teoria e história) o teatro; mas não se associa o estudo da literatura à boa produção literária? Não quero passar uma impressão conservadora que determina previamente que o bom escritor será o estudioso de literatura (isso seria inclusive a meu ver uma afirmação dura e errônea), apenas questionar o por quê do distanciamento tão imenso entre a crítica, a teoria, e o fazer literário. É como se crítico e escritor dividissem de forma sagrada um trabalho que toca a ambos como espécie de time, mas no qual é expressamente proibido a um fazer o trabalho do outro.
É de fato uma curiosidade levemente preocupada o que me move nessa reflexão. Não tenho ainda (e me pareceria estranho ter) hipóteses bem embasadas para comprovar, teorias a argumentar. Resta-me apenas essa vontade de diálogo a respeito, essa necessidade de compreender quais são as implicações desse lugar isolado no qual foi metida a figura ranzinza e solitária, essa espécie de gênio de talento inexplicável não “ensinavel”, no qual francamente não acredito. Se tantos artistas reconhecidos a menos tempo na história que o escritor, lutaram por um espaço acadêmico, por um lugar de troca e formação, por não ter mais o glamour e o peso das artes ditas dons que se nasce possuindo, aprende sozinho, aprende fazendo... A serviço de quê está esse afastamento da arte da escrita de sua teoria, de sua crítica, de seu estudo? A serviço de quê formamos críticos e teóricos com máscaras estereotípicas de frustrados e amargos, prontos a detonar seus inimigos artistas incompreendidos, tantas vezes cobrados justamente na sua falta de diálogo com a teoria?
Me incomodam profundamente tanto a imagem estereotípica do crítico mal amado e amargurado, quanto do escritor gênio incompreendido e inatingível. Me parece que a ambos falta a liberdade de ser, ao menos por vezes, justamente o outro.
domingo, 27 de fevereiro de 2011
detective down
Trying, for a change, to skip the train of thought
the train of thought that led to... how do these add up?
trying, for a change, to skip the details and explanations.
stop making sense
only the absolute certainty of one imediate, ultimate, and shamefull need:
for the provision ex machina
who comes in singing
Roxanne, you don´t have to wear that dress tonight.
Those days, Roxanne, my dearest,
are over.
the train of thought that led to... how do these add up?
trying, for a change, to skip the details and explanations.
stop making sense
only the absolute certainty of one imediate, ultimate, and shamefull need:
for the provision ex machina
who comes in singing
Roxanne, you don´t have to wear that dress tonight.
Those days, Roxanne, my dearest,
are over.
sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011
dois livros e nenhum grafite
"e porque já somos pessoas sem ódio"
primeira coisa ao chegar foi procurar Bonnie and Clyde 0,1% 0,2% 0,1%
1.6%
....
Hoje o trânsito foi maior que eu, assim. ganhou-me, unido à dor de estômago que vai e vem desde o pêssego das 12:36. Chego a perguntar-me se comi pêssegos demais essa semana. Mas um foi uma nectarina, justifico.
Uma daquelas chuvas extremamente previsíveis, que quase me agradam nesse ritual de respeito a uma força maior que minha obrigação das 18:50 em São Caetano da Putaqueopariu (nenhum tom de grosseria desejado, apenas uma unidade de medida de distância mesmo)
a questão é que aviso desde já que esse trecho está todo errado, que essas palavras já foram escritas antes hoje, e que na falta de superfície se perderam por rios de sarjeta, nas ladeiras afluentes da Paulista. Isso aqui, sinto informar-me, é a cópia da cópia da cópia da cópia, e a paixão platônica das palavras primeiramente pronunciadas na minha cabeça é meio de cristo, meio trágica, impossivel. Isso aqui é um rascunho depois da obra. saca? Uma pena, mas a obra que fique lá, acriticável, nos meus momentos de pequeniníssimos assombros de encontrar na catedral de hoje.
Quis deixar apenas a luz do corredor acesa. Mas não pude, porque quando a da sala queimou, troquei a lâmpada por uma incandescente, que é agora a única luz decentemente quente da minha casa. Todas as outras, deixadas por ela, frias. Não é nenhum espanto. Substituo aos poucos, com uma calma inventada que deixa as roupas no chão.
Dizia, o trânsito, a chuva. Permiti que imperasse sobre meus deveres, larguei-o (la machina, la maledetta odiosa maccchhhhiiinnnna.) Fui sentar-me no café a ler Ana Cristina. Procuro a caneta, que agora de súbito estou produtiva, desejo anotações imprescindíveis e utilíssimas, calculo as pontas de uma produção um pouco mentirosa, mas muito menos preguiçosa que minha presença em casa. Não trouxe caneta. Retorno ao livro. Na falta de grifos, faço infinitas orelhas nas páginas, marco numa mistura imensa os poemas que interessam tanto a um assunto como ao outro, começo a sentir uma vontade imensa de rasgar pequenos pedaços das páginas, fazer cortes no espaço entre as linhas, origami de cada página, que expresse todas as minhas flechas e notas. Maldita seja essa necessidade de palavras. Desencano, teórica, da fidelidade ao distanciamento de estudo. leio. A mão direita se alterna entre o copo de chai, e o pêlo ínfimo, imperceptível e resistente, que não cede às minhas unhas descascadas: minha discretíssima obcessão.
Começa a vir-me uma vontade imensa de escrever, não, que eu perdoe-me a mim mesma-me a imbeleza desta imagem: uma vontade de escrever que é quase um movimento peristáltico. Se não morresse de vergonha de mim mesma começaria ali um vômito íngreme de palavras (não tenho a mais vaga ideia quais) Mas faladas as palavras, que se queriam escritas, se esvaziariam.
Olho em volta, procuro mesmo. Chego a procurar no chão por um lápis ex machina. Porque algum deus haveria de existir, e algum deus haveria de haver deixado cair um lápis junto aos guardanapos amassados debaixo dessa poltrona, tenho absoluta certeza. Olho em volta de novo, se alguém olhasse bem de perto veria uns olhos quase de absitinência. Vejo os palitinhos de mexer café, os potes de canela e açucar, e me imagino escrevendo com palitinhos e canela. Tomo uma certa coragem ridícula, e pergunto às garotas na minha frente se têm um lápis. Não. Poderia pedir a qualquer outra pessoa, o café está lotado, e alguém terá um lápis. Mas me dou por derrotada e ridícula. A garota no balcão parece a Carol. tem o cabelo da carol, o corpo da carol, se veste um pouco melhor que a carol, e se fosse a carol me emprestaria um lápis. Poderia escrever com o meu guarda-chuva. "a menina que escrevia com um guarda-chuva", imagino mais um personagem de conto infantil que não vou escrever. Volto ao livro, tento controlar-me.
Paro em algum momento crucial, alguma frase que exige um olho que olhe pra outro ponto, e a re-imagine. leio "starbucks" e alguma cidade que não me lembro. outro quadro e outras palavras, e todos os cantos estão cheios de palavras e só eu não posso, só eu só eu não posso preciso quero tanto, roubaria a lapiseira das mãos dela e sairia em disparada fugindo triunfante com meu pão nosso de cada dia nas mãos. É que estou quase enfiando-me numa personagem pobre, sinto uma inveja faminta deles todos, como se sentisse de fato fome, e eles comessem. Uma fraqueza de fome que nem me permite pedir um pedaço.fome fome. Só penso envergonhada "Ninguém nesse café tem um grafite 0.5?" "Ninguém nessa porra de café tem um grafite 0.5?" 0.5? Ou era 0.7? Sempre erro, compro sempre o grafite errado, acumulo em casa caixas e caixas de grafite inutil e carrego comigo lapiseiras vazias.
Os homens, como os poemas, ou os grafites, vêm sempre na hora errada.
"um remédio da minha cabeeeeça... misturando o mel de abelha com bicarbonato de sódio"
Volto ao livro. leio mais um pouco, afundo-me de não saber quem são se é que são alguém Gil, Ângela, e nem poder escrever que não sei quem são. Quis grifar:
"O mesmo Gil que jura que são de Shakespeare os versos "trepar é humano, chupar divino" e desvia o olhar para o centro da mesa, depois de diagnosticar silenciosamente minha paranóia."
rio.
Transformada a angústia trágica e as palavras épicas em comédia rasgada interna, termino a página, troco de livro. And just like that I am transported. Because this is the work of a copyist, let it be clear, but a copyist, I feel, using each and every wrong word. I can hear her voice. Patti speaks a bit like some woman I´ve heard in a movie. Strong voice, yet sweet, surprised at her own self. I read, treasuring, yet another page of my recently elected Romeo and Juliet, Tristan and Isolda, my Romantic, ideal and purest love heroes: Patti and Robert. each page is cherished and rationed as water, already sure as a little girl, that this will be the most beautifull love story I will ever know.
Like a small London girl reliving the time of the princesses, and making sketches of beautifull castles and a strong prince; while reading MY chosen fairytale, I imagine passionately that love was only true and possible in the 60s and 70s. Not a sad feeling, just a conscious dive into a kind of subversive Bovary state, and it beautifies all colors around, and brings me to tears. Every word of hers seems to be drawn like a thin weed from fluf earth, put together as the poor ornaments they both collected in the sweet cold of the hunger years.
I notice it is already the second phrase in the same page that has produced a line streaming down my face. As I am now the little child reader, embarassed, I get together my things, decide to leave the cafe, and show no more of my weak emotions to the strangers pittyless of those in need of pencil.
The street is wet, and I cry a little. I cry because the city is beautifull, I cry because I want to write, I cry because I am not writing, I cry because I have never writen, I cry because the sky is the same color of that picture I took, that night in December. I cry, but only very little. A Paulista é linda, e eu decido não limpar o rosto das duas linhas que brilham simétricas. Ignoro a vergonha ao atravessar a rua exposta, por um motivo puramente estético (sempre confundo aesthetic with static) - And if they both were "aesthetic thiefs", I would be an aesthetic cryer. Porque a Paulista está mesmo linda com o ornamento de duas lágrimas meio Românticas, datadas e quase cristãs. A Paulista está muito bonita ornada com esse pequeno pontinho amarelo que deslisa em passinhos rápidos. O que é o que é um pontinho amarelo na paulista? Não, a Paulista está mesmo linda com esse pequeno risco amarelo, porque sou mais um pequeno risco que um pequeno ponto. A dor de estômago começa a voltar, e a cidade é tão excessiva que até a lua parece eternamente sair de trás do escuro, prometer uma outra face que não faz-se.
I would be an aesthetic cryer. Mas ali mais pra frente, penso ver de canto de olho aproximar-se um homem, e para me defender de uma cantada desagradavel por enquanto apenas prevista, I quickly wipe my face, and put my hand in my pocket. E me lembro dos votos de fidelidade à arte, acho dificílimo e lindo que se façam votos destes nos nossos tempos. Só mesmo quando o amor era possivel, teria sido possivel a arte. Desejaria ter tido também esta coragem. Lembro-me que fiz como estes apenas dois votos na vida: mais de uma vez, num trem que se afastava de Verona, prometi intensa e imensamente o retorno, e tenho cumprido. Um voto talvez a uma família escolhida. The other, standing in front of a Paul Klee painting, the promise of a son. An offering: The painting as a present to a future child, and the future child as a present to the painting.
Doscendo a Peixoto Gomide, percebi gostar das sandálias de 30 reais, por causa da alta música íngreme e rítmica de descida criada por elas. Retomo o caminho de volta ao carro, sentindo na sola o sabão seco do rio que se formara de alguma lavagem na ida: espuma assim sem mais escorrendo em meio ao trânsito. E sinto voltar a dor de estômago, que invento dever melhorar devido à caminhada. Talvez tenha comido pêssegos demais essa semana. No caminho para casa passo pelos mesmos faróis que se lembravam de mim no dia dos amarelos, hoje vermelhos todos, te-lo juro, e está escrito "delivery rodésia" em algum lugar, porque vou jogando as frases que me lembrar até não acabar mais, porque essa história não tinha fim, Ana.
75.2% - quase.
primeira coisa ao chegar foi procurar Bonnie and Clyde 0,1% 0,2% 0,1%
1.6%
....
Hoje o trânsito foi maior que eu, assim. ganhou-me, unido à dor de estômago que vai e vem desde o pêssego das 12:36. Chego a perguntar-me se comi pêssegos demais essa semana. Mas um foi uma nectarina, justifico.
Uma daquelas chuvas extremamente previsíveis, que quase me agradam nesse ritual de respeito a uma força maior que minha obrigação das 18:50 em São Caetano da Putaqueopariu (nenhum tom de grosseria desejado, apenas uma unidade de medida de distância mesmo)
a questão é que aviso desde já que esse trecho está todo errado, que essas palavras já foram escritas antes hoje, e que na falta de superfície se perderam por rios de sarjeta, nas ladeiras afluentes da Paulista. Isso aqui, sinto informar-me, é a cópia da cópia da cópia da cópia, e a paixão platônica das palavras primeiramente pronunciadas na minha cabeça é meio de cristo, meio trágica, impossivel. Isso aqui é um rascunho depois da obra. saca? Uma pena, mas a obra que fique lá, acriticável, nos meus momentos de pequeniníssimos assombros de encontrar na catedral de hoje.
Quis deixar apenas a luz do corredor acesa. Mas não pude, porque quando a da sala queimou, troquei a lâmpada por uma incandescente, que é agora a única luz decentemente quente da minha casa. Todas as outras, deixadas por ela, frias. Não é nenhum espanto. Substituo aos poucos, com uma calma inventada que deixa as roupas no chão.
Dizia, o trânsito, a chuva. Permiti que imperasse sobre meus deveres, larguei-o (la machina, la maledetta odiosa maccchhhhiiinnnna.) Fui sentar-me no café a ler Ana Cristina. Procuro a caneta, que agora de súbito estou produtiva, desejo anotações imprescindíveis e utilíssimas, calculo as pontas de uma produção um pouco mentirosa, mas muito menos preguiçosa que minha presença em casa. Não trouxe caneta. Retorno ao livro. Na falta de grifos, faço infinitas orelhas nas páginas, marco numa mistura imensa os poemas que interessam tanto a um assunto como ao outro, começo a sentir uma vontade imensa de rasgar pequenos pedaços das páginas, fazer cortes no espaço entre as linhas, origami de cada página, que expresse todas as minhas flechas e notas. Maldita seja essa necessidade de palavras. Desencano, teórica, da fidelidade ao distanciamento de estudo. leio. A mão direita se alterna entre o copo de chai, e o pêlo ínfimo, imperceptível e resistente, que não cede às minhas unhas descascadas: minha discretíssima obcessão.
Começa a vir-me uma vontade imensa de escrever, não, que eu perdoe-me a mim mesma-me a imbeleza desta imagem: uma vontade de escrever que é quase um movimento peristáltico. Se não morresse de vergonha de mim mesma começaria ali um vômito íngreme de palavras (não tenho a mais vaga ideia quais) Mas faladas as palavras, que se queriam escritas, se esvaziariam.
Olho em volta, procuro mesmo. Chego a procurar no chão por um lápis ex machina. Porque algum deus haveria de existir, e algum deus haveria de haver deixado cair um lápis junto aos guardanapos amassados debaixo dessa poltrona, tenho absoluta certeza. Olho em volta de novo, se alguém olhasse bem de perto veria uns olhos quase de absitinência. Vejo os palitinhos de mexer café, os potes de canela e açucar, e me imagino escrevendo com palitinhos e canela. Tomo uma certa coragem ridícula, e pergunto às garotas na minha frente se têm um lápis. Não. Poderia pedir a qualquer outra pessoa, o café está lotado, e alguém terá um lápis. Mas me dou por derrotada e ridícula. A garota no balcão parece a Carol. tem o cabelo da carol, o corpo da carol, se veste um pouco melhor que a carol, e se fosse a carol me emprestaria um lápis. Poderia escrever com o meu guarda-chuva. "a menina que escrevia com um guarda-chuva", imagino mais um personagem de conto infantil que não vou escrever. Volto ao livro, tento controlar-me.
Paro em algum momento crucial, alguma frase que exige um olho que olhe pra outro ponto, e a re-imagine. leio "starbucks" e alguma cidade que não me lembro. outro quadro e outras palavras, e todos os cantos estão cheios de palavras e só eu não posso, só eu só eu não posso preciso quero tanto, roubaria a lapiseira das mãos dela e sairia em disparada fugindo triunfante com meu pão nosso de cada dia nas mãos. É que estou quase enfiando-me numa personagem pobre, sinto uma inveja faminta deles todos, como se sentisse de fato fome, e eles comessem. Uma fraqueza de fome que nem me permite pedir um pedaço.fome fome. Só penso envergonhada "Ninguém nesse café tem um grafite 0.5?" "Ninguém nessa porra de café tem um grafite 0.5?" 0.5? Ou era 0.7? Sempre erro, compro sempre o grafite errado, acumulo em casa caixas e caixas de grafite inutil e carrego comigo lapiseiras vazias.
Os homens, como os poemas, ou os grafites, vêm sempre na hora errada.
"um remédio da minha cabeeeeça... misturando o mel de abelha com bicarbonato de sódio"
Volto ao livro. leio mais um pouco, afundo-me de não saber quem são se é que são alguém Gil, Ângela, e nem poder escrever que não sei quem são. Quis grifar:
"O mesmo Gil que jura que são de Shakespeare os versos "trepar é humano, chupar divino" e desvia o olhar para o centro da mesa, depois de diagnosticar silenciosamente minha paranóia."
rio.
Transformada a angústia trágica e as palavras épicas em comédia rasgada interna, termino a página, troco de livro. And just like that I am transported. Because this is the work of a copyist, let it be clear, but a copyist, I feel, using each and every wrong word. I can hear her voice. Patti speaks a bit like some woman I´ve heard in a movie. Strong voice, yet sweet, surprised at her own self. I read, treasuring, yet another page of my recently elected Romeo and Juliet, Tristan and Isolda, my Romantic, ideal and purest love heroes: Patti and Robert. each page is cherished and rationed as water, already sure as a little girl, that this will be the most beautifull love story I will ever know.
Like a small London girl reliving the time of the princesses, and making sketches of beautifull castles and a strong prince; while reading MY chosen fairytale, I imagine passionately that love was only true and possible in the 60s and 70s. Not a sad feeling, just a conscious dive into a kind of subversive Bovary state, and it beautifies all colors around, and brings me to tears. Every word of hers seems to be drawn like a thin weed from fluf earth, put together as the poor ornaments they both collected in the sweet cold of the hunger years.
I notice it is already the second phrase in the same page that has produced a line streaming down my face. As I am now the little child reader, embarassed, I get together my things, decide to leave the cafe, and show no more of my weak emotions to the strangers pittyless of those in need of pencil.
The street is wet, and I cry a little. I cry because the city is beautifull, I cry because I want to write, I cry because I am not writing, I cry because I have never writen, I cry because the sky is the same color of that picture I took, that night in December. I cry, but only very little. A Paulista é linda, e eu decido não limpar o rosto das duas linhas que brilham simétricas. Ignoro a vergonha ao atravessar a rua exposta, por um motivo puramente estético (sempre confundo aesthetic with static) - And if they both were "aesthetic thiefs", I would be an aesthetic cryer. Porque a Paulista está mesmo linda com o ornamento de duas lágrimas meio Românticas, datadas e quase cristãs. A Paulista está muito bonita ornada com esse pequeno pontinho amarelo que deslisa em passinhos rápidos. O que é o que é um pontinho amarelo na paulista? Não, a Paulista está mesmo linda com esse pequeno risco amarelo, porque sou mais um pequeno risco que um pequeno ponto. A dor de estômago começa a voltar, e a cidade é tão excessiva que até a lua parece eternamente sair de trás do escuro, prometer uma outra face que não faz-se.
I would be an aesthetic cryer. Mas ali mais pra frente, penso ver de canto de olho aproximar-se um homem, e para me defender de uma cantada desagradavel por enquanto apenas prevista, I quickly wipe my face, and put my hand in my pocket. E me lembro dos votos de fidelidade à arte, acho dificílimo e lindo que se façam votos destes nos nossos tempos. Só mesmo quando o amor era possivel, teria sido possivel a arte. Desejaria ter tido também esta coragem. Lembro-me que fiz como estes apenas dois votos na vida: mais de uma vez, num trem que se afastava de Verona, prometi intensa e imensamente o retorno, e tenho cumprido. Um voto talvez a uma família escolhida. The other, standing in front of a Paul Klee painting, the promise of a son. An offering: The painting as a present to a future child, and the future child as a present to the painting.
Doscendo a Peixoto Gomide, percebi gostar das sandálias de 30 reais, por causa da alta música íngreme e rítmica de descida criada por elas. Retomo o caminho de volta ao carro, sentindo na sola o sabão seco do rio que se formara de alguma lavagem na ida: espuma assim sem mais escorrendo em meio ao trânsito. E sinto voltar a dor de estômago, que invento dever melhorar devido à caminhada. Talvez tenha comido pêssegos demais essa semana. No caminho para casa passo pelos mesmos faróis que se lembravam de mim no dia dos amarelos, hoje vermelhos todos, te-lo juro, e está escrito "delivery rodésia" em algum lugar, porque vou jogando as frases que me lembrar até não acabar mais, porque essa história não tinha fim, Ana.
75.2% - quase.
domingo, 30 de janeiro de 2011
Superfície, Tela, Terreno
“a seda azul do papel que envolve a maçã”
a caneta faz diferença
a caneta, lápis, lapiseira, azul, preta, cinza, ponta fina, 07,9,5... determina.
Papel, caderno, computador: panela ou frigideira, com tefau ou sem.
Tudo são telas.
Computador: o cotidiano mesmo mesmíssimo teclado todo dia ela faz tudo sempre igual, disposições absolutamente gastas, não há novas combinações entre as mesmíssimas teclas. Explico. Certa vez tomei emprestado o computador da minha mãe para escrever um email. Outra marca, teclado, material. Nesta mesma vez sentei-me também noutra posição, sobre outro colchão. O design das teclas (e para não soar por demais representante de vendas do senhor Steve), a textura do material sob meus dedos, a temperatura sobre minha coxa- que difere em graus da máquina com a qual habituei-me tão rapidamente- mostram-se parte do próprio corpo daquilo que se escreve. Transparece inevitavelmente a mudança, a re-disposição daquilo que se cria num suposto universo abstrato.
É como se, talvez em menor escala, eu pensasse em outra língua.
A idéia não é algo imaterial, expelido em letras através de um ser humano com mãos, e tinta a disposição. Idéias são confeccionadas e construídas do material sobre o qual são projetadas. Óleo sobre tela; pensamento sobre metal mais ou menos frio, mais ou menos liso, através de um corpo mais ou menos confortável, dobrado sobre uma superfície mais ou menos dura, quente, áspera ou lisa. Não há, começo a aceitar, independência ou autonomia do pensamento, nem do ser pensante. A mente como unidade geradora de organizações, produtora de idéias desvinculada e apoderada do próprio corpo, do espaço em torno, é uma ficção. E arrisco o exagero: ficção produtora de cisões esquizofrênicas, delírios megalomaníacos, que beiram, ao mesmo tempo constantemente abismos de depressão: a improdutividade.
A tela, superfície imediata estende-se: o que vejo pela janela, o peso excessivamente conhecido desse ar. E a percepção da mudança minusculamente significativa que o peso e o material de outra máquina tiveram sobre minhas palavras, espelha-se na minha necessidade constante de “novos ares”. O corpo é o mesmo aqui, que seria ao pousar na china, certo? Não, absolutamente não. Terreno daquilo que penso, ou mais ainda sinto, é parte da concepção de tudo o que sai de mim, dependente de fora, completamente dependente. Mudança de material: preciso escolher madeira hoje, depois me esforçarei para conseguir grandes planícies plásticas, para cores mais vivas... Ou menos.
A descoberta da absoluta materialidade das ideias e sentimentos, essa afirmação inevitavel da dependência que a figura tem de sua tela, a compreensão da importância e da determinação criada pela superfície, gera ainda outra imediata compreensão: A minha necessidade quase Sabínica de enfileirar planos de partida. Melhor: modelar situações inimaginadas, produzir cuidadosamente a possibilidade do sentimento de todos os sentimentos: "I never thought I´d be here".
Daí a necessidade do novo terreno: não a traição do antigo, mas a soma de outras superfícies, que possibilitem a criação de novas combinações para os mesmos signos emocionais.
Talvez contraditório perceber que apesar dessa sequência infinita de nomes novos para placas de estrada, meu apego à nova superfície é sempre quase imediato! Coleciono em poquíssimos dias, minutos, horas, uma lista quase fotográfica de características daquele lugar, criadoras de ligações emocionais usualmente cotidianas, nesse caso guardadas como absolutas, depois de apenas um gole. Sabores experimentados apenas uma vez são guardados em algum ponto tão fundo da memória, que provavelmente passam em breve a ter mais relação com a imaginação, que qualquer experiência de fato vivida. Estranhamente, no entanto, sou capaz de reconhecer o mesmo exato gosto, o mesmo exato cheiro depois de anos e anos: por algum motivo que desconheço, meu paladar e meu olfato são imensamente superiores à minha capacidade racional de expressão: a essa necessidade de guardar em palavras pedaços antigos de mim.
O novo e a repetição não se excluem nem contradizem: somam-se, tornando absolutamente impossivel chegar mais perto do fim da lista interminavel de "afazeres para a vida": É como se eu percorresse sempre a metade do caminho que falta, já que cada novo espaço não elimina aquele nome, não passa ao próximo, mas torna-se uma vontade incessante de retorno. Cada espaço novo é vizinho de um outro espaço-tela de nome desconhecido, que possibilitaria combinações absolutamente novas da minha carne-tinta, e o número de novas superfícies é redondamente infinito! No entanto, os terrenos pelos quais passo por alguns instantes também se somam à lista de afazeres futuros: a repetição daqueles pequenos sabores, a retomada é como um reconhecimento de si mesmo, é como olhar-se no espelho depois de anos, é como a construção de um lar ilimitado.
E a casa, construida, física; faz-se aos poucos, do intervalo entre ir e ir, do conforto um pouco triste de desfazer malas, do preenchimento gradual de paredes com fotos de outras superfícies... que talvez permitam, no mínimo, outro cheiro para os pensamentos de sempre.
a caneta faz diferença
a caneta, lápis, lapiseira, azul, preta, cinza, ponta fina, 07,9,5... determina.
Papel, caderno, computador: panela ou frigideira, com tefau ou sem.
Tudo são telas.
Computador: o cotidiano mesmo mesmíssimo teclado todo dia ela faz tudo sempre igual, disposições absolutamente gastas, não há novas combinações entre as mesmíssimas teclas. Explico. Certa vez tomei emprestado o computador da minha mãe para escrever um email. Outra marca, teclado, material. Nesta mesma vez sentei-me também noutra posição, sobre outro colchão. O design das teclas (e para não soar por demais representante de vendas do senhor Steve), a textura do material sob meus dedos, a temperatura sobre minha coxa- que difere em graus da máquina com a qual habituei-me tão rapidamente- mostram-se parte do próprio corpo daquilo que se escreve. Transparece inevitavelmente a mudança, a re-disposição daquilo que se cria num suposto universo abstrato.
É como se, talvez em menor escala, eu pensasse em outra língua.
A idéia não é algo imaterial, expelido em letras através de um ser humano com mãos, e tinta a disposição. Idéias são confeccionadas e construídas do material sobre o qual são projetadas. Óleo sobre tela; pensamento sobre metal mais ou menos frio, mais ou menos liso, através de um corpo mais ou menos confortável, dobrado sobre uma superfície mais ou menos dura, quente, áspera ou lisa. Não há, começo a aceitar, independência ou autonomia do pensamento, nem do ser pensante. A mente como unidade geradora de organizações, produtora de idéias desvinculada e apoderada do próprio corpo, do espaço em torno, é uma ficção. E arrisco o exagero: ficção produtora de cisões esquizofrênicas, delírios megalomaníacos, que beiram, ao mesmo tempo constantemente abismos de depressão: a improdutividade.
A tela, superfície imediata estende-se: o que vejo pela janela, o peso excessivamente conhecido desse ar. E a percepção da mudança minusculamente significativa que o peso e o material de outra máquina tiveram sobre minhas palavras, espelha-se na minha necessidade constante de “novos ares”. O corpo é o mesmo aqui, que seria ao pousar na china, certo? Não, absolutamente não. Terreno daquilo que penso, ou mais ainda sinto, é parte da concepção de tudo o que sai de mim, dependente de fora, completamente dependente. Mudança de material: preciso escolher madeira hoje, depois me esforçarei para conseguir grandes planícies plásticas, para cores mais vivas... Ou menos.
A descoberta da absoluta materialidade das ideias e sentimentos, essa afirmação inevitavel da dependência que a figura tem de sua tela, a compreensão da importância e da determinação criada pela superfície, gera ainda outra imediata compreensão: A minha necessidade quase Sabínica de enfileirar planos de partida. Melhor: modelar situações inimaginadas, produzir cuidadosamente a possibilidade do sentimento de todos os sentimentos: "I never thought I´d be here".
Daí a necessidade do novo terreno: não a traição do antigo, mas a soma de outras superfícies, que possibilitem a criação de novas combinações para os mesmos signos emocionais.
Talvez contraditório perceber que apesar dessa sequência infinita de nomes novos para placas de estrada, meu apego à nova superfície é sempre quase imediato! Coleciono em poquíssimos dias, minutos, horas, uma lista quase fotográfica de características daquele lugar, criadoras de ligações emocionais usualmente cotidianas, nesse caso guardadas como absolutas, depois de apenas um gole. Sabores experimentados apenas uma vez são guardados em algum ponto tão fundo da memória, que provavelmente passam em breve a ter mais relação com a imaginação, que qualquer experiência de fato vivida. Estranhamente, no entanto, sou capaz de reconhecer o mesmo exato gosto, o mesmo exato cheiro depois de anos e anos: por algum motivo que desconheço, meu paladar e meu olfato são imensamente superiores à minha capacidade racional de expressão: a essa necessidade de guardar em palavras pedaços antigos de mim.
O novo e a repetição não se excluem nem contradizem: somam-se, tornando absolutamente impossivel chegar mais perto do fim da lista interminavel de "afazeres para a vida": É como se eu percorresse sempre a metade do caminho que falta, já que cada novo espaço não elimina aquele nome, não passa ao próximo, mas torna-se uma vontade incessante de retorno. Cada espaço novo é vizinho de um outro espaço-tela de nome desconhecido, que possibilitaria combinações absolutamente novas da minha carne-tinta, e o número de novas superfícies é redondamente infinito! No entanto, os terrenos pelos quais passo por alguns instantes também se somam à lista de afazeres futuros: a repetição daqueles pequenos sabores, a retomada é como um reconhecimento de si mesmo, é como olhar-se no espelho depois de anos, é como a construção de um lar ilimitado.
E a casa, construida, física; faz-se aos poucos, do intervalo entre ir e ir, do conforto um pouco triste de desfazer malas, do preenchimento gradual de paredes com fotos de outras superfícies... que talvez permitam, no mínimo, outro cheiro para os pensamentos de sempre.
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
duas madrugadas morenas
Ter que ir embora, é ter que ir embora. A distânicia a percorrer, a urgência ou o tempo da viagem, são camadas finas de contratempo que se acumulam sobre a leve frase: ter que ir embora. Diferença de gênero, número, e grau: diferença nenhuma, na pele daquilo que se dá. Aquilo que se dá é ter que ir embora, é a madrugada morena de despedida.
Sobre a cabeça, sempre os aviões. Sobre, dentro, no entorno da cabeça os sempre eles aviões, de partida. A gente que vive de ir, vive assim, naquele friozinho insone depois da cama; daquele jeito em que acordar demora horas, e se acorda apenas no ar.
Duas madrugadas nos dois pés dum ano, escuros de desavisos, esperando gotas. As novidades de começo e de fim, planejadas ou não, são assim... como duas reticências só, à espera da terceira.
A gente que vive de ir, vive assim, colecionando madrugadas bolas-de-gude, que giram infinitamente em torno de si mesmas. Uma construção de passados nulos pra guardar de relíquia, algum bolso que eu nunca tive.
Minha primeira madrugada morena foi mesmo um casamento com aqueles braços fortes que me queriam. Me queriam assim mesmo como um arado, como um grande arado, o primeiro arado do primeiro homem, da primeira noite no início dos tempos. Na minha primeira madrugada morena, me foi lido o futuro em cartas dispostas entre as nossas pernas. As minhas por cima, e o chão é de um calor fevereiro, negando neves quaisquer. Um imenso começo, elevado a condição de existência, um traçado de planos e linhas futuras, completamente desamarradas uma da outra, soltas dentro dessa vontade imensa de não se despedir nunca, não tendo nunca se apresentado. Curto como um conto, do tamanho da nossa vida inteira. Amei por cinquenta anos: fizemos ali bodas de ouro, como no momento em que se casa, e que se ama pra toda a vida, até depois nunca nunca mais.
Bola-de-gude, minha madrugada que não se queria única. Mas é da sua natureza, e sua natureza saciada fala por si... torna-se inevitavel saber-se em paz, na sua unidade monosilábica. Dura algumas décadas de espera, e depois amadurece um momentinho pequeno, que sempre havia sabido.
A segunda madrugada morena foi de uma pequenina escuridão. Muito prazer, como é mesmo que se escreve o seu nome? O meu é aquele estirado ali ao lado, escrito em letras de... Mas nós pulamos as formalidades, os desinteresses, e os próprios passados todos. Ao contrário, sem votos nem esse tecido de planos doloridos coloridos da primeira. Por acaso estes braços me caem bem- disse. Seguir viagem, mudar de país... mas é como eu disse, há algo de profundamente idêntico nesses olhos que não dormirão. Há sempre um certo desespero em saber-se de leve à beira de tudo... tudo! Ali bem adiante, e a possibilidade de estar alucinando é grande, dado o adiantado da hora. Bobagens, minha filha, bobagens. O tecido das trocas é fino, e meus olhos se percebem de repente assim, expostos, imensamente desconhecidos. A desimportância e a leveza da tua brevidade, madrugada, me deixou assim, no desejo de te coroar, te eleger a mais bela, por singela e solta. Mas não tenho, dessa distância de passos, o poder de te guardar ainda acabada, pronta, una. A vigília daquele que vela é por demais bela, gêmea dos passados sublimes. Deixar-se ver adormecer, e ser desperta por outro, é a mais momentânea entrega, brincadeiras de olhos abertos do calor.
Mas ter que ir embora, é ter que ir embora. E nada se iguala à duçura leve de fruta que amadurece só uma, logo antes de já ser depois. Daí tua semelhança, madrugada morena de segunda viagem! Retorno ao início de tudo o que se perde, em novas camadas mais breves, mais leves, mais.
Sobre a cabeça, sempre os aviões. Sobre, dentro, no entorno da cabeça os sempre eles aviões, de partida. A gente que vive de ir, vive assim, naquele friozinho insone depois da cama; daquele jeito em que acordar demora horas, e se acorda apenas no ar.
Duas madrugadas nos dois pés dum ano, escuros de desavisos, esperando gotas. As novidades de começo e de fim, planejadas ou não, são assim... como duas reticências só, à espera da terceira.
A gente que vive de ir, vive assim, colecionando madrugadas bolas-de-gude, que giram infinitamente em torno de si mesmas. Uma construção de passados nulos pra guardar de relíquia, algum bolso que eu nunca tive.
Minha primeira madrugada morena foi mesmo um casamento com aqueles braços fortes que me queriam. Me queriam assim mesmo como um arado, como um grande arado, o primeiro arado do primeiro homem, da primeira noite no início dos tempos. Na minha primeira madrugada morena, me foi lido o futuro em cartas dispostas entre as nossas pernas. As minhas por cima, e o chão é de um calor fevereiro, negando neves quaisquer. Um imenso começo, elevado a condição de existência, um traçado de planos e linhas futuras, completamente desamarradas uma da outra, soltas dentro dessa vontade imensa de não se despedir nunca, não tendo nunca se apresentado. Curto como um conto, do tamanho da nossa vida inteira. Amei por cinquenta anos: fizemos ali bodas de ouro, como no momento em que se casa, e que se ama pra toda a vida, até depois nunca nunca mais.
Bola-de-gude, minha madrugada que não se queria única. Mas é da sua natureza, e sua natureza saciada fala por si... torna-se inevitavel saber-se em paz, na sua unidade monosilábica. Dura algumas décadas de espera, e depois amadurece um momentinho pequeno, que sempre havia sabido.
A segunda madrugada morena foi de uma pequenina escuridão. Muito prazer, como é mesmo que se escreve o seu nome? O meu é aquele estirado ali ao lado, escrito em letras de... Mas nós pulamos as formalidades, os desinteresses, e os próprios passados todos. Ao contrário, sem votos nem esse tecido de planos doloridos coloridos da primeira. Por acaso estes braços me caem bem- disse. Seguir viagem, mudar de país... mas é como eu disse, há algo de profundamente idêntico nesses olhos que não dormirão. Há sempre um certo desespero em saber-se de leve à beira de tudo... tudo! Ali bem adiante, e a possibilidade de estar alucinando é grande, dado o adiantado da hora. Bobagens, minha filha, bobagens. O tecido das trocas é fino, e meus olhos se percebem de repente assim, expostos, imensamente desconhecidos. A desimportância e a leveza da tua brevidade, madrugada, me deixou assim, no desejo de te coroar, te eleger a mais bela, por singela e solta. Mas não tenho, dessa distância de passos, o poder de te guardar ainda acabada, pronta, una. A vigília daquele que vela é por demais bela, gêmea dos passados sublimes. Deixar-se ver adormecer, e ser desperta por outro, é a mais momentânea entrega, brincadeiras de olhos abertos do calor.
Mas ter que ir embora, é ter que ir embora. E nada se iguala à duçura leve de fruta que amadurece só uma, logo antes de já ser depois. Daí tua semelhança, madrugada morena de segunda viagem! Retorno ao início de tudo o que se perde, em novas camadas mais breves, mais leves, mais.
sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
Number 9
Hush, Dear, It´s Just a Metaphore
(first scrap of a dark tale, to be properly recreated by someone worthy, who could tell -with techinque- the noble tragedy of our humble aristocracy)
"On the day my best friend died, I could not get my copper clean."
I thought I had walked for three mountains, three valleys, crossed three rivers, and come to this particular light-post. I thought I was tired from this amazing all-night journey back and forth deep down the city halls. I leaned against the wall, the light-post, the patch of non-air behind my back. The tree was lined with christmas lights. White. And they waved, slowly lost focus. Am I drunk or dreaming?
In my hands, a bottle, or a phone, or a heavy heavy black-covered book. I wished I could throw up. Or wake up.
Were the lights white? The lights turned to red. A tree, wrapped in red christmas lights. There is nothing more morbid than red christmas lights, wrapped around the only tree, in a wide street, where there´s nothing.
The scenario is now different, although I know I have walked only five steps. One. Two. Three. Four. Five. Eyes fixed-transfixed on the cemment. I am alone inside an empty parking lot. Empty except for the millions of golden christmas balls in more corners than four and wait there are waiters and it´s a crowded fancy room, except that it´s an empty parking lot, and everything is made of cement and fence. The waiters carry around large round silver platters lined with small bits of food I cannot recognize. People eat, chat, chant I think about the weather, they all wear julery made from the daughter of Henry The..... I do not know them. I have never seen any of them. And they are mothers and fathers and grandparents and uncles and sisters and brothers of friends of mine, and I have never would never ever have wanted to see them. Waiters slowly slide through the crowd, as dancers in a faint unnoticeable coreography, and as they ice-skate the hall of parking spaces made of grey, I cannot see faces behind champagne. My stomach hurts. I wish I could wake up, or throw up. They all dress black, or is it mabe silver as the cement under my bear feet? The air of the summer night makes me sweat, and my feet are freezing. I observe my toes coil up and become bluish, grey.
His hair is red. He´s standing right in front of me, with his flaming orange sparkle of a head, and he wears a plaid shirt. And there is green in his plaid shirt. I ask myself if it´s become fashionable, or if he´s been dead for over twenty years. He walks up to me, wearing a glass of champagne. Wearing it, yes. As a mask. As if whispering, he talks to me in the only voice loud enough to be heard inside the parking lot:
-Something´s happened.
I stare.
-Something has happened. Here.
He offers me the champagne, and I can see a white pill dancing inside it. It is a christmas ornament, the nicest christmas ornament, I think.
I drink, and my thirst is suddenly aparent.
I look around at the relatives of my friends, whose faces I cannot see.
-Why are they here?- I´m beggining to feel uneasy.- Why are they here?!- my tone of desperation is not discrete. I cannot figure out their faces, I do not know their surnames.
- Why . are. they. here?!
He looks at his shoes, he looks at my cold bare feet, fighting the cement. He suddenly looks very worried.
- Where are our shoes?! - this time his is an ungernt whisper
- What?
- They will recognize your feet, where are your shoes?!
I have no idea. I try to remember shoes. I try to remember ever having worn shoes.
- Why are they here? - I plead. I look around once again, tring to find th right question, as if to a backwords sphynx. - What is this?!
He puts his hand over my shoulder. They all seem to wear silver, or grey, or maybe gold, or was is black? Was it all black and I had never seen black before?
He looks into my eyes, his is a look of deep concern, or maybe only left-over sadness from lunch.
- Something has happened.
I recognize one of the women. She is short, and I recognize her calves. The feeling of pieces falling into place and a lack of will to recognize anything and anyone fills me as water up to my nose, when finaly he speaks again and I breathe out:
- I saw her. - He says.- Yesterday. I saw her, I ran into her. She told me. She said... She said she was leaving to. To. She was leaving to change her face. She said, she said she would finally be beautifull.
My tears taste like scotch. I have always hated scotch, I would never in my entire life drink a drop of scotch, and here they are, and here they have filled my tears with dirty old scotch. I try to spit, and I bend as my stomach is torn with the throbbing pain I had felt only once before. I bend, but I know I cannot bend much, or they will see my feet. He holds me and I see the cement, lit up by the reflection of the golden balls.
- I´ve been trying to call her.- I tell him, in tears, as if pleading forgiveness.- I´ve tried to reach her, I´ve been trying to reach her, and she hasn´t picked up.
- There has been an accident.
I am raged - There was no fucking accident!
-Shut up- he whispers. They´ll hear you. Shut the fuck up!
- There was no fucking accident- I weep.- It was a choice.
The halucinogenous mixture of guilt, loss, pain and hatred should not be mixed with strong medicine. What have I taken? What was the pill you gave me? Was it antidepressants? I don´t take antidepressants! Whose antidepressants did you give me? this feeling is not mine! I want to throw up, or wake up.
They bring out a cake. A white enormous birthday cake filled with colorfull candles, and those things that sparkle, and amuse the little kids that pretend they are touching real fire. They all sing, or seem to. They smile, and laugh, and they all hold long candles, and white roses.
- What the hell is this? Why is there a cake? Why do they... -
I can´t speak. My stomach is again pulled ground-wise by the wrenching pain that suffocates old rich alcoholics that drink scotch. My words are muffled by tears and I cannot make out the shapes in front of me, he holds me while I vomit and bile colors the grey, dancing with the flames of the candles, and the ground reflections of the golden balls. His arms wrap around my back, I sob onto his shoulders.
- She was running- He said. - There´s been an accident. She was trying to escape, and. Well. They found her. I mean, they gave her the wrong ticket I mean they were helping her escape, except they weren´t. She was eaten by the pack, you see. She was escaping the wolves, only to fall into their nest.
- I´ve been tring to reach her. I guess she´s been keeping her phone on vibrate- My tone is casual, my voice almost doesn´t tremble.- I was wearing her shoes. I had borrowed her shoes and. And she had no shoes and she had no no way she was... I had been wearing her shoes. I hadn´t tried enough. I guess I was hoping she would never pick up.
A record player on the corner starts spinning in a very low volume and I recognize his tropical smiling voice.
- Don´t walk up to them. I don´t want them to see our feet.
I try to protest, I want to plead guilty and. He holds me. I look at him, I can almost imagine myself half-smiling:
- Second time, I guess. You and me, and this place. I´m not nearly dressed as properly. I had my Pink Floyd shirt on. The Wall. At seventeen you die from jumping out a window... At twenty three, I guess you die from... not.
- She was trying to run away from them, I guess. She was eaten by wolves, you know. It´s not her fault. It was a choice. And it... well, it wasn´t. They ate her, you see. The villagers. She cried for help, she said there were wolves, and the villagers you see, they ate her.
- The smell of this birthday cake... it´s making me naucious. I need to leave.
- Have a piece. - His voice´s changed
- No.
- It´s done. Have a piece. The sugar will make you better.
- No, let´s get out of here. I´m sick, let´s get out of here.
- Here. He wraps his hands around my back - here.
He takes me closer to the center of the sparkling black parking lot, where there is a table, and a white cake, with pink filling. I am naucious. I have never been so naucious.
- It was an accident, Have a piece.
- It was no accident.
- Have a piece. They won´t hurt you.
His shirt is not plaid anymore. His hair is not red anymore. I´ve lost him in the crowd. He has spoken, he´s been taken, I know. I try to run. My feet are exposed. My feet have always been exposed. I hate funerals, I hate christmas, and I want to throw up. There is no exit. She´d been trying to escape, and I had never said a word. He´d been trying to run and I had never said a word, I´d been trying to ignore, and I had never said a word. The cake tastes like flesh, and scotch tears.
(first scrap of a dark tale, to be properly recreated by someone worthy, who could tell -with techinque- the noble tragedy of our humble aristocracy)
"On the day my best friend died, I could not get my copper clean."
I thought I had walked for three mountains, three valleys, crossed three rivers, and come to this particular light-post. I thought I was tired from this amazing all-night journey back and forth deep down the city halls. I leaned against the wall, the light-post, the patch of non-air behind my back. The tree was lined with christmas lights. White. And they waved, slowly lost focus. Am I drunk or dreaming?
In my hands, a bottle, or a phone, or a heavy heavy black-covered book. I wished I could throw up. Or wake up.
Were the lights white? The lights turned to red. A tree, wrapped in red christmas lights. There is nothing more morbid than red christmas lights, wrapped around the only tree, in a wide street, where there´s nothing.
The scenario is now different, although I know I have walked only five steps. One. Two. Three. Four. Five. Eyes fixed-transfixed on the cemment. I am alone inside an empty parking lot. Empty except for the millions of golden christmas balls in more corners than four and wait there are waiters and it´s a crowded fancy room, except that it´s an empty parking lot, and everything is made of cement and fence. The waiters carry around large round silver platters lined with small bits of food I cannot recognize. People eat, chat, chant I think about the weather, they all wear julery made from the daughter of Henry The..... I do not know them. I have never seen any of them. And they are mothers and fathers and grandparents and uncles and sisters and brothers of friends of mine, and I have never would never ever have wanted to see them. Waiters slowly slide through the crowd, as dancers in a faint unnoticeable coreography, and as they ice-skate the hall of parking spaces made of grey, I cannot see faces behind champagne. My stomach hurts. I wish I could wake up, or throw up. They all dress black, or is it mabe silver as the cement under my bear feet? The air of the summer night makes me sweat, and my feet are freezing. I observe my toes coil up and become bluish, grey.
His hair is red. He´s standing right in front of me, with his flaming orange sparkle of a head, and he wears a plaid shirt. And there is green in his plaid shirt. I ask myself if it´s become fashionable, or if he´s been dead for over twenty years. He walks up to me, wearing a glass of champagne. Wearing it, yes. As a mask. As if whispering, he talks to me in the only voice loud enough to be heard inside the parking lot:
-Something´s happened.
I stare.
-Something has happened. Here.
He offers me the champagne, and I can see a white pill dancing inside it. It is a christmas ornament, the nicest christmas ornament, I think.
I drink, and my thirst is suddenly aparent.
I look around at the relatives of my friends, whose faces I cannot see.
-Why are they here?- I´m beggining to feel uneasy.- Why are they here?!- my tone of desperation is not discrete. I cannot figure out their faces, I do not know their surnames.
- Why . are. they. here?!
He looks at his shoes, he looks at my cold bare feet, fighting the cement. He suddenly looks very worried.
- Where are our shoes?! - this time his is an ungernt whisper
- What?
- They will recognize your feet, where are your shoes?!
I have no idea. I try to remember shoes. I try to remember ever having worn shoes.
- Why are they here? - I plead. I look around once again, tring to find th right question, as if to a backwords sphynx. - What is this?!
He puts his hand over my shoulder. They all seem to wear silver, or grey, or maybe gold, or was is black? Was it all black and I had never seen black before?
He looks into my eyes, his is a look of deep concern, or maybe only left-over sadness from lunch.
- Something has happened.
I recognize one of the women. She is short, and I recognize her calves. The feeling of pieces falling into place and a lack of will to recognize anything and anyone fills me as water up to my nose, when finaly he speaks again and I breathe out:
- I saw her. - He says.- Yesterday. I saw her, I ran into her. She told me. She said... She said she was leaving to. To. She was leaving to change her face. She said, she said she would finally be beautifull.
My tears taste like scotch. I have always hated scotch, I would never in my entire life drink a drop of scotch, and here they are, and here they have filled my tears with dirty old scotch. I try to spit, and I bend as my stomach is torn with the throbbing pain I had felt only once before. I bend, but I know I cannot bend much, or they will see my feet. He holds me and I see the cement, lit up by the reflection of the golden balls.
- I´ve been trying to call her.- I tell him, in tears, as if pleading forgiveness.- I´ve tried to reach her, I´ve been trying to reach her, and she hasn´t picked up.
- There has been an accident.
I am raged - There was no fucking accident!
-Shut up- he whispers. They´ll hear you. Shut the fuck up!
- There was no fucking accident- I weep.- It was a choice.
The halucinogenous mixture of guilt, loss, pain and hatred should not be mixed with strong medicine. What have I taken? What was the pill you gave me? Was it antidepressants? I don´t take antidepressants! Whose antidepressants did you give me? this feeling is not mine! I want to throw up, or wake up.
They bring out a cake. A white enormous birthday cake filled with colorfull candles, and those things that sparkle, and amuse the little kids that pretend they are touching real fire. They all sing, or seem to. They smile, and laugh, and they all hold long candles, and white roses.
- What the hell is this? Why is there a cake? Why do they... -
I can´t speak. My stomach is again pulled ground-wise by the wrenching pain that suffocates old rich alcoholics that drink scotch. My words are muffled by tears and I cannot make out the shapes in front of me, he holds me while I vomit and bile colors the grey, dancing with the flames of the candles, and the ground reflections of the golden balls. His arms wrap around my back, I sob onto his shoulders.
- She was running- He said. - There´s been an accident. She was trying to escape, and. Well. They found her. I mean, they gave her the wrong ticket I mean they were helping her escape, except they weren´t. She was eaten by the pack, you see. She was escaping the wolves, only to fall into their nest.
- I´ve been tring to reach her. I guess she´s been keeping her phone on vibrate- My tone is casual, my voice almost doesn´t tremble.- I was wearing her shoes. I had borrowed her shoes and. And she had no shoes and she had no no way she was... I had been wearing her shoes. I hadn´t tried enough. I guess I was hoping she would never pick up.
A record player on the corner starts spinning in a very low volume and I recognize his tropical smiling voice.
- Don´t walk up to them. I don´t want them to see our feet.
I try to protest, I want to plead guilty and. He holds me. I look at him, I can almost imagine myself half-smiling:
- Second time, I guess. You and me, and this place. I´m not nearly dressed as properly. I had my Pink Floyd shirt on. The Wall. At seventeen you die from jumping out a window... At twenty three, I guess you die from... not.
- She was trying to run away from them, I guess. She was eaten by wolves, you know. It´s not her fault. It was a choice. And it... well, it wasn´t. They ate her, you see. The villagers. She cried for help, she said there were wolves, and the villagers you see, they ate her.
- The smell of this birthday cake... it´s making me naucious. I need to leave.
- Have a piece. - His voice´s changed
- No.
- It´s done. Have a piece. The sugar will make you better.
- No, let´s get out of here. I´m sick, let´s get out of here.
- Here. He wraps his hands around my back - here.
He takes me closer to the center of the sparkling black parking lot, where there is a table, and a white cake, with pink filling. I am naucious. I have never been so naucious.
- It was an accident, Have a piece.
- It was no accident.
- Have a piece. They won´t hurt you.
His shirt is not plaid anymore. His hair is not red anymore. I´ve lost him in the crowd. He has spoken, he´s been taken, I know. I try to run. My feet are exposed. My feet have always been exposed. I hate funerals, I hate christmas, and I want to throw up. There is no exit. She´d been trying to escape, and I had never said a word. He´d been trying to run and I had never said a word, I´d been trying to ignore, and I had never said a word. The cake tastes like flesh, and scotch tears.
Subscrever:
Mensagens (Atom)