sexta-feira, 20 de outubro de 2017

Amar ou não amar o nosso corpo, eis a questão.


Minha amiga Mel tem um blog super legal chamado Repete Roupa. Lá ela está contando sobre essa experiência de repetir uma peça de roupa por semana ao longo de um ano, além de alguns pensamentos sobre consumo minimalista e outras paradas. Recentemente ela postou um texto sobre esse lance de body-positivity, e como talvez seja uma pressão não muito positiva (é...) essa de termos de “amar nossos corpos”. A ideia dela, bem resumida (vão ler lá: http://repeteroupa.blogspot.com.br/2017/10/semana-41-por-favor-parem-de-falar-pra.html) é defender uma certa neutralidade, uma tranquilidade maior ao lidar com o corpo, sem tantos julgamentos de positivo ou negativo, mais um “esse aqui é meu corpo, cada um tem um e bora lá, ta tudo certo”. Achei super bacana o texto da Mel, e ele me inspirou a escrever um também, não porque eu concordasse ou discordasse dela, mas porque a pergunta ressoou pra mim: Será que eu amo meu corpo? Será que eu acho importante amar o meu corpo?

A resposta imediata que surgiu na minha cabeça como momento de mais verdadeiro amor pelo meu corpo foi o seguinte: Eu estava na fase mais deprê da minha vida, mal mesmo. E a fase mais deprê da minha vida não foi aos 14 quando eu ouvia Nirvana no escuro no quarto a tarde toda, tá? Isso era saúde. Foi uma fase em que poucas pessoas sabiam que eu estava passando por uma crise bastante profunda de identidade (inclusive sexual), amorosa, de culpa, e muitos etcs. Bem, nessa fase eu parei de comer direito, e no meio disso também tive alguma gripe pesada ou infecção urinário ou algum cazzo assim que me fez tomar remédio. O remédio me deu uma diarréia dos diabos, e além de não comer eu passei uma semana em que, digamos, o pouco que eu comia também não me alimentava. Bem, o momento que me veio à mente foi depois dessa semana – ótima – . Eu estava pelada para entrar no banho e olhei minhas coxas. Elas estava finas. Eu nunca tive coxas finas. Eu nunca achei elas particularmente bonitas, e em alguns momentos mais cheinha achei feias mesmo. Mas nesse momento eu olhei as minhas coxas e tive a impressão de que elas estavam sumindo, de que eu estava mesmo aos poucos desaparecendo no ar. A minha carne (representada aqui pelas minhas coxas) diminuía e eu deixava de ser eu. Eu chorei muito olhando pra elas. Nesse dia eu tive uma certeza muito grande de que amava meu corpo. Eu queria ele aqui, inteiro, não queria me perder. Não era sobre achar minhas coxas grossas bonitas e perder essa beleza estética, era sobre um amor que está muito colado a existir: amar estar viva mesmo. Esse estar viva estava diretamente ligado ao meu corpo e até ao seu formato, a forma como eu o reconheço e, portanto, me reconheço. Meu maior momento de “amor ao meu corpo” tratava-se de amar ter carne e osso e querer ser eu, e poder tocar numa existência sólida que me define e me aterra. 

Lembrando disso, a partir do texto da Mel, comecei a refletir sobre esse amor ao próprio corpo. Será que amar o meu corpo tem que significar achar ele belo? O momento mais verdadeiro de amor ao meu corpo teve pouco a ver com beleza. Talvez outros momentos em que me achei bela estejam relacionados a amor, mas nenhum deles é tão marcante. Tenho certeza que construímos socialmente uma relação entre amor e beleza, e não pretendo dizer que ela seja necessariamente ruim. Fico lembrando de amores de amizade e de amores românticos por pessoas que não considerava especialmente “belas”, e o quanto a beleza delas crescia nos meus olhos quanto mais eu as amava. Então na minha experiência o amor puxa a beleza estética, facilita, abre a porta para ela. Mas será que o contrário é verdade? Nas minhas experiências de amor pelos outros acho que não. Não acho que eu tenha passado a amar alguém mais pela sua beleza. Aí tesão e admiração podem ser puxados por esse bonde da beleza, mas amor mesmo, acho que não. De outro lado esse texto também não vem pra criticar os projetos das migas que estão buscando na beleza estética feminina (com desenho, fotografia, etc) um gancho pra algum tipo de salto de auto-estima (como a própria Melzinha fala indiretamente no post dela). Vejo uma pá de amiga encontrando um sentido importante pra sua relação com o corpo a partir de uma parada estética. Eu estudo poesia e ensino teatro: longe, muito longe de mim querer tirar o valor da estética das nossas vidas. Beleza é um troço importante, poderoso. Mas perigoso também, né? Como tudo isso que é grande, alimenta e consome. É uma reflexão que não tem intenção de normatividade, mas de conversa (será que é possível fazer isso na internet? A gente vai tentando). E a conversa é com a Mel e com as leitoras da Mel, e com as minhas amigas e tal. 

Não sei se consigo curtir muito essa ideia da neutralidade, porque acho essa palavra quase impossível. Mas acho que a gente tem uma certa tendência a ver nossos corpos como algo separado de nós, uma posse, um objeto que temos e ao qual reagimos. Nesse episódio das coxas e da sensação de desaparecer eu senti que eu e meu corpo éramos uma coisa só. E eu amo essa coisa. Mas esse amor muitas vezes está, ou pode estar, lá no seu íntimo, bastante descolado do juízo estético. E também não é todo dia que a gente se ama. Aliás, não é a maior parte do tempo, né. E isso vai muito além do corpo. Mas se eu acho que a gente tem que se amar? Acho, bicho. Porque não entendo esse lance de se amar como uma ausência de auto-crítica, nem um lugar de arrogância. Mas concordo com a Mel quando ela questiona essa “body-positivity” que nos exige agora que “ao invés de” odiar nossos corpos e nos julgarmos feias invertamos o jogo e nos julguemos divas belíssimas, esculturas de perfeição e beleza. Esse bonito em resposta ao feio talvez deva mesmo ser repensado, porque ele pode repetir um tipo de relação similar, não é? Mas por quê amar meu corpo deve querer dizer achar ele bonito? Eu posso amar meu corpo porque ele sou eu e estou teclando esse texto agora e olhando para essa tela, e sentindo fome, e gosto de café na boca, e só experiencio a vida de dentro dele. Amar meu corpo também é amar as ideias que meu cérebro tem, e a minha imaginação que me dá prazer e que gera coisas belas. E aí a beleza voltou, pela porta dos fundos, sorrateira. Não tem hierarquia dessas belezas, eu creio, mas que a gente está acostumada a resumir beleza à superfície do espelho, ah, estamos né? E o amor não precisa ser belo não. Outra: é incrível ter uma experiência estética de beleza num lugar q não esperamos, tipo olhar as gotas escorrendo em um copo de água e pensar “eita que coisa linda” é incomum e prazeroso, mas a gente não pega o copo de água pra beber e pensa “ai, copo, você não tá tão bonito assim hoje, preciso te deixar o mais belo possível”, pensa? Tá, a gente gosta de ter copos bonitos também, mas vocês entenderam meu ponto. A exigência de beleza com o corpo é exaustiva. Talvez dê pra amar sem exigir tanto prazer estético constante.

No fundo o que eu percebi refletindo sobre o texto da Mel é que o amor pelo meu próprio corpo que mais me resgatou e me resguardou, o que mais me fez bem, foi um amor bem primário de reconhecimento de mim. Para mim estar viva é estar num corpo, ser um corpo, até porque não estou nadinha interessada nesse papo de iluminação e ascender ao Nirvana (reparem no segundo Nirvana do texto), mas na existência plena de comer e dormir e ler e falar e cortar a unha do pé, e pesquisar poesia, e trocar ideia com as amigas e pisar no chão. Existir assim é mais do que com um corpo que se faz, é sendo um corpo. Um corpo que mais do que ter eu vivo, e que eu amo sim, não necessariamente porque o admiro esteticamente, mas porque sinto que amor é força motriz de estar aqui viva. (Aliás posso dizer que eu amo cada um dos meus pelos, e continuo achando eles meio feios na verdade.)

A Regina Spektor resumiria assim: “I have a perfect body, but sometimes I forget. I have a perfect body cause my eyelashes catch my sweat, yes they do.”  

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

O Globo da Morte de Tudo de Nuno Ramos e a Resistência dos Valores Velhos



Ontem fomos ao Sesc Pompeia ver a performance de Nuno Ramos e Eduardo Climachauska. Uma estrutura cúbica de estantes enormes ligadas a dois Globos da Morte, daqueles de circo, na parte interna do cubo. Nas estantes, objetos. Quatro categorias: vidro cerveja, vidro nanquim, cerâmica e porcelana. Antes de tudo, caminhávamos em torno e por dentro da obra. Esculturas de porcelana estilo casa de vó, feno, filtros de barro, utensílios antigos, moldes de dentes daqueles que a gente fazia na ortodontista. Mais um sem número de outras coisas. Por dentro encontramos um retrato do Paulo Coelho, uma prateleira inteira de exemplares do Memórias Póstumas de Brás Cubas (eu dei risada e disse: nossa que bom que isso vai cair). Entre a sensação ambígua de quarto de colecionador e acúmulo exaustivo de 'horder', curioso e levemente sufocante. Eu que costumo curtir observar obras em silêncio estava aliviada pela multidão conversando, sentia vontade de falar muito: a obra não pede contemplação. A ideia é: dois motoqueiros rodam nos globos da morte, a estrutura sacode, as coisas se destroem.

Ficamos bem para trás na multidão, na hora em que os motoqueiros entraram. O choque do circense e da galeria naquele espaço do Sesc Pompeia, pelo qual tenho um carinho nostálgico (passei ali carnavais vestida de Sininho enquanto ela ainda não se chamava TinkerBell), me arrancou um sorriso. O circo e a performance no fundo estão de mãos dadas, pensei, com um puta frio na barriga. Deram partida, as pessoas aplaudiam e gritavam animadas para o começo de um show. Eles começaram a girar. De fora, e ainda mais de longe, o olhar tem duas opções: foco nas coisas da estante, mais óbvio, ou foco nos motoqueiros lá dentro, zunindo. As estantes tremem, começam, aos poucos a cair coisas. O jogo está aí: as coisas demoram muito mais para cair do que a gente imagina. Caíram, do lado que nós víamos, apenas algumas coisas maiores, e a cada uma gritos de alegria da plateia. Se você foca, com esforço, o olhar no motoqueiro lá dentro, porém, eles estão zunindo de ponta cabeça numa velocidade estonteante: Globo da Morte como a gente via no circo mesmo, aterrorizante, barulhento, intenso. A pessoa com corpo de gente roda lá dentro numa velocidade de prender a respiração. A velocidade da queda dos objetos é outra: algo entre o tempo humano e o tempo histórico? Geológico? Superiterpretei? Ouvíamos, na ponta dos pés, o barulho de algo que se quebrava, aos poucos, e a cada barulho eu pensava que devia ter ficado do outro lado, “onde as coisas devem estar caindo mais rápido”. Nós queremos ver, nós queremos sentir a tal da morte desse tudo. A menina na minha frente grita “Quebra tudo!” É isso que nós estamos sentindo, e a coisa tem um crescente, quando mais eles rodam mais treme. Alguém no meio da plateia grita “Fora Temer!” e eu entendo que é isso: essa é a catarse da esquerda. Essa era pra ser a catarse da esquerda. Mas o que acontece é muito mais brilhante do que o script. Tudo isso em poucos minutos para. Eu não sei por que, não consigo ver. O motoqueiro de trás parou. Dizem que ele caiu. Parece estar tudo bem. Demora a recomeçar. O outro motoqueiro faz mais duas rodadas: a sensação não é menos intensa. Eles estão se falando, o outro, parado em cima da moto parece dar sugestões. Como fazer essa porra toda cair sozinho. A real é: mesmo em dupla aposto que essa porra toda não cai.

Depois de mais duas tentativas ainda intensas e espetaculares, em que vemos cair um violão-celo (eu tinha ficado com dó quando vi o instrumento ali, na estante de cima. Na hora H torci com todo mundo pra ver ele se espatifar: a gente comemora cada momento), eles decidem acabar a performance. Não rolou? Rolou. Rolou pra caralho. Rolou mais do que o previsto: rolou que o mundo é um lugar cheio de metáforas e a catarse da esquerda está difícil, muito difícil. A gente grita Fora Temer, mas a porcelana brega e impositiva, aquela que ocupa um espaço que não lhe cabe, não cai. Aliás, por aqui, ela anda vencendo no primeiro turno. O brilhante da obra é que ela abre espaço pra se significar sozinha, ali. Os motoqueiros descem e recebem os aplausos da plateia. É impossível fugir das metáforas, impossível não se sentir elite intelectual que aplaude a força de trabalho, que no fundo é artística, é estética, é revolucionária. É artista de Globo da Morte (que não é Rede, pelo contrário) tentando detonar essas porras todas. Mas elas não caem. Algumas. A gente vibra pelas poucas. O genial da obra ontem foi esse coito interrompido da esquerda paulistana. Depois de domingo, depois de impeachment, não poderia ter sido diferente. A gente quer brincar de sentir alívio, a gente quer brincar de catarse, mas a obra ganha vida própria, e manda tapão na cara. Curte aí essas poucas peças que caem, curte aí essa vontade coletiva de cair, o barulho, o cheiro de diesel, curte aí e aplaude agradece os caras que estão tentando. Um deles saiu mancando. Espero que ele esteja bem.

É claro que parte dessa sensação já está na proposta da obra: mesmo com os dois motoqueiros rodando a toda, as coisas demoram mais a cair do que a gente pensa, e isso é brilhante. Mas no vídeo da performance que rolou no Rio a gente ve que a coisa vai se intensificando, tem um gosto sim de catarse, que a gente, de São Paulo, não teve. “É como um bichão que se sacode, que quer se livrar dessas coisas, desses mosquitinhos nas costas”, diz o Nuno no vídeo. Pois é, os mosquitinhos dos valores velhos resistem. Aqui em sampa eles são mais duros ainda. Aqui em sampa em pleno 2016 está difícil gritar Fora Temer e ver algo cair. Ontem foi quase sem vandalismo, e a grande sacada Brechtiana de tudo isso é que catarse às vezes não transforma. Quem sabe esse coito interrompido da esquerda deixe uma pulga atrás da orelha, para sacudir depois.

Fica o desejo que na performance do segundo turno no Rio a casa caia pras velhas dentaduras: “Quebra tudo!” eu grito junto dela, aqui em silêncio.

Parabéns, Nuno e Eduardo, porque mesmo o implanejável se planeja numa obra, de alguma forma: essa capacidade de dar vazão àquilo que o mundo propõe, e não vice versa.

Sampa do meu coração, onde eu já pulei outros carnavais, bora levar essa pra casa, quem sabe pegar nuns bastões, aprender a rodar essa porra direito.

Vaso ruim não quebra. Vamos ter que sacudir mais.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Um poema para Margaret Atwood

acho que não existe uma mesa sequer nessa cidade
com uma janela ou um vão ao lado
em que não se ouça o som de serras
britadeiras
furadeiras
essa ampliação até o limite
do som das máquinas de dentista
o agudo que pulsa dentro da raiz do dente
até o topo da espinha
e de retorno ao estômago:
tudo no mundo está em obras

existe uma ansiedade pulsante
que a gente lê e acredita e assina embaixo
ser nossa
minha
particular
intransferível
íntima e inconfessável
todos os horóscopos dizem a mesma coisa
o pulso logo abaixo da garganta
é unânime

o mundo é uma cobra que se prepara para o bote
a minha esofagite
a sua rinite
a nossa cólica
não é minha

pai nosso, mãe de ninguém

minha loucura, não te acalma
te caçam na esquina se você vacila
não te acalma, te apruma
veste o waterproof dos sorrisos de batom
tece uma mortalha de dia
escreve poemas de noite
passa por baixo da porta
para a cela ao lado

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Relendo A Imaginação Feminina no Poder 30 anos depois ou: Por que ler Ana C.

Relendo A Imaginação Feminina no Poder 30 anos depois ou: Por que ler Ana C.

Em 1981 Heloisa Buarque de Holanda publica no Jornal do Brasil o artigo intitulado A Imaginação Feminina no Poder, discutindo uma aparente nova cena de mulheres poetas brasileiras, e tendo Ana Cristina Cesar como porta de entrada e centro para a discussão. Heloisa abre seu artigo pela seguinte descrição:
"Trajando knickers amarelo, sandálias chinesas, cabelo punk, com diploma M. A em tradução literária from Essex, e um livro editado em Londres, acaba de retornar ao Brasil Ana Cristina Cesar. Pelo desempenho e visual não deixa margem à dúvida: trata-se do que se convencionou chamar de uma mulher moderna, independente e bem-sucedida."

A introdução da imagem, descrição de uma persona da mulher moderna, independente, bem sucedida introduz a aparente contradição discutida pela autora no texto: A figura daquilo que seria uma convenção de “mulher moderna bem sucedida” é contraposta ao título ("que desconcerta essa imagem") do livro publicado por Ana: Luvas de Pelica, e pela descrição da capa: "que traz um manequim em primeiro plano, oferecendo pó de arroz e perfumes numa vitrina de moda em semitons rosa shocking. Um diário de alcova? Rabiscos e sonhos de uma moça bem-comportada?"

Essa discussão dá o tom do artigo de Heloisa Buarque de Holanda: A imagem da autora mulher bem sucedida e independente não corresponde aos estereótipos da época na sua escrita: O momento histórico pedia da “mulher independente” uma poesia da recusa às imagens de feminilidade tradicionais. Das escritoras da década anterior ao universo institucional em transformação, e aos programas de televisão voltados para a voz feminina, Heloisa faz um breve apanhado do cenário contemporâneo a seu texto no que diz respeito à voz feminina no Brasil. Comenta a linguagem de uma poesia feminina da década de setenta que denomina como "fala feminina liberada", que se permite tomar espaços do discurso resguardados ao homem, e aponta com precisão a premiação da poeta Gilka Machado (a quem inclusive elogia), como reconhecimento tardio, mas que representa o início de um ganho de espaço das reivindicações femininas dos anos setenta.

Por outro lado, diante de tal cenário Heloisa vê surgir uma nova geração de mulheres na poesia, que parecem trazer de volta à tona os temas do cotidiano íntimo e especificamente doméstico. Depois de uma comparação de títulos entre as gerações, Heloisa se atém ao pequeno livro de Ana C: Luvas de Pelica seria um diário de viagem, e aqui as observações da autora aprofundam a aparente contradição. Ao invés de relatar idas, descobertas, etc, o diário de viagem de Ana C surpreende o leitor que busca as expectativas tradicionais do gênero:

"O que parece interessar aqui é precisamente o não ir, o ficar, o voltar e o exercício obsessivo de escrever inúmeras cartas para o ponto de partida, a empenhadíssima construção de um pequeno espaço silêncios, em vez da conquista e da exploração do mundo." comenta Heloisa.

Para a autora, a proposta do livro é justamente uma retomada do tom íntimo e das imagens de universo doméstico, sensibilidade e confinamento. O livro estaria construído em torno dos "estigmas femininos", que seriam, segundo ela, "tabus para o feminismo". Fazendo uma crítica bastante direta e dura, porém coerente em sua argumentação, Heloisa Buarque de Holanda parte de sua análise da obra de Ana C para falar mais diretamente ao discurso feminista:
"Sem que se possa duvidar dos objetivos de sua luta, o discurso feminista supõe algumas simplificações e uma certa incapacidade, enquanto linguagem, para enfrentar seus fantasmas mais delicados. Na busca da igualdade, o discurso que informa as lutas feministas de certa maneira legitima os mitos que sustentam o modo de produção capitalista."

Para a autora, Ana Cristina Cesar, em conjunto com uma série de outras poetas a quem vai acrescentando à discussão (Mara Lucia Alvin, Lucia Villares, e Maria Rita Kehl), parece apresentar uma saída poética para essa linguagem feminista à qual ela deseja criticar. Algo de novo na linguagem feminina se apresenta para a autora a partir desse lugar do discurso feminino que retoma os temas característicos do espaço tradicionalmente feminino. O livro em forma de diário de viagem que trabalha muito mais as imagens de confinamento, segredo, cartas enviadas à casa, construiria poeticamente justamente esse espaço, uma retomada da linguagem “feminina” rejeitada anteriormente.

É interessante porém nos ater ao momento em que Heloisa menciona uma conversa com Ana Cristina, na qual a poeta fala do livro em questão a partir de uma imagem bastante interessante:
"Ela, ao se referir ao livro, conta, como numa parábola, a história da passividade do óvulo: 'Sem dar a menor atenção à verdade fisiológica, diz-se que o óvulo, imóvel, fica à espera do exercício tumultuoso e valente de espermatozoides para ser fecundado. Ninguém fala da longa e perigosa viagem solitária percorrida pelo óvulo através de túneis obscuros'. E conclui: 'Esse livro que aborda as viagens pelo lado do confinamento é uma contribuição à biologia do segredo e à maldade desse tom'.

A relação que a poeta faz entre a pressuposta inatividade/passividade do óvulo e sua proposta no livro de "viagens pelo lado do confinamento" é bastante interessante para pensar, como o faz Heloisa, essa proposta da retomada do lugar do confinamento feminino, das imagens do ambiente doméstico na linguagem da poesia feminina. Parece importante lembrar, no entanto, que a ideia do papel ilusoriamente passivo do óvulo, e a crítica ao sustento machista desse pressuposto se remete a ninguém menos que Simone de Beauvoir, na base da teoria feminista. Talvez, portanto, o que ocorra nessas propostas poéticas que surgem ali, das mulheres do início da década de 80, sensivelmente observadas por Heloisa Buarque de Holanda, seja antes uma reorganização dessa linguagem crítica da mulher, feminista mesmo, e uma forma de trazer à tona a discussão dessas imagens de passividade e reclusão, suas ambivalências e contradições inerentes, do que uma recusa direta da tal linguagem feminista criticada por Buarque de Holanda. A autora detecta nessa nova geração de mulheres na poesia, aquilo que ela chama de "sintomas de um discurso pós-feminista, um novo espaço para a reflexão sobre o poder da imaginação feminina."

Para aquelas que lêm o artigo de Heloisa aqui dessa distância temporal de já mais de trinta anos, talvez o termo pós-feminista cause estranhamento (ou para algumas, como esta que vos fala, bastante incômodo) e não é à toa. Num momento em que o feminismo se tornou, novamente, assunto pop, e se discute longamente nos blogs, redes sociais, e tantos outros ambientes reais e virtuais a importância de um movimento que parece aos poucos ganhar de fato novas caras, em constante transformação, mais inclusivo aliás, soa bastante estranho falar em "pós feminismo". O que me parece, no entanto, é que as palavras de Heloisa Buarque de Holanda refletem um momento bastante específico da nossa história cultural, e o que se havia produzido em termos de literatura informada e inspirada pelo feminismo nos anos 70 por grande parte das poetas no Brasil se reduzia, de certa forma, a esse feminismo no qual Ana C e suas companheiras de geração já não cabem. O significado do termo 'feminismo' muda (atualmente talvez mais plural do que nunca) imensamente nesses últimos trinta anos, e talvez o feminismo ao qual Heloisa se referisse em 81 seja bastante específico dessa estética do choque e do desrecalque. Nesse contexto poetas como Ana C vêm inaugurar um novo momento em que, cansadas dos brados, buscam novos significados (bastante críticos, aliás) para o universo da suposta "feminilidade", pelo lado de dentro.

Vale observar, por outro lado, que seria ilusório acreditar que tenha sido superada a necessidade dos brados e afirmações severas de direito a um espaço para além do doméstico na nossa cultura, e que mesmo nos idos de 2016 ainda se precisa publicamente lutar contra a imagem imposta por veículos de comunicação da mulher "bela, recatada e do lar". Mas notemos que, para isso, hoje a militância feminista, talvez mais massificada, parece querer se constituir inclusiva, ditando menos as regras do "desrecalque". Mais a mulher do "lugar de mulher é onde ela quiser", do que a negação completa do lar. Que a mulher possa ser "do lar" ou "do bar", em momentos diferentes, pediam algumas das hashtags usadas na resposta à revista Veja e sua descrição redutora porém exaltante de Marcela Temer. Hoje parece haver maior investimento no protagonismo e no poder de escolha, com todos os problemas de individualismo que isso poderá nos trazer, e também as vantagens. Tudo são fases. Ainda assim talvez esse "pós-feminismo" poético que Heloisa anunciava em 81 (e eu preferia hoje chamar de feminismo mesmo, apenas num momento específico, em movimento como todo conceito, na disputa eterna de significados), tenha ajudado a construir as bases para a cultura feminista que se configura hoje, mais popularizada, talvez. Uma cultura feminista menos resumida à estética do choque (que não precise abrir mão totalmente dela, mas que encontre nos âmbitos da sensibilidade também suas manifestações), uma cultura do feminismo mais plural nas suas manifestações artísticas, imagéticas, poéticas. A própria pluralidade de “feminismos” da qual se fala hoje na militância e no espaço mais massificado das redes sociais talvez seja fruto também dessa mudança que se evidencia pelas poetas da geração de Ana Cristina: ser mulher e procurar compreender-se enquanto mulher se torna mais plural, as imagens se misturam entre a delicadeza e o soco, há menos certo e errado. O que não quer dizer que haja menos busca, menos perguntas, pelo contrário. É possível que essas poetas das quais nos falava Heloisa em 81, Ana C como carro chefe, tenham contribuído imensamente na construção, justamente, das imagens da cultura pop atual, mais plurais da mulher. 

quinta-feira, 9 de junho de 2016

Um poema em U

eu queria...
te escrever um poema.

era importante
te escrever um poema.
como se quando eu, finalmente,
te escrevesse um poema
fosse ser possível
ver estrelas
o primeiro planeta
que não se vê daqui,
focar o espaço embaçado sem os óculos,
vestir uma lã que coubesse,
estancar um corte, descansar um corpo.

como se fosse, a cada palavra, ser desdobrado
um barco de papel

quando o poema chegasse.

o poema está engasgado
o poema arranha
o poema está engolido feito um choro
feito um choro bom
(alguém engole choro bom?)

o poema quer existir como uma pedra, uma concha,
mas ele pisca
refrata,
uma imagem que deseja desesperadamente ser refletida
numa onda.
ele esboça
dança
ensaia,
mas a onda quebra.
o poema se vsilumbra
deslumbra,
e desiste.

os desenhos das montanhas que se espelham na areia da praia...

o poema não dá tempo

o poema queria ser uma praia
pra você deitar um lábio sorridente uma sobrancelha tranquila
o poema queria ser e não sabe
o poema queria saber e não é

o poema não dá cabo

uma pipa sem rabo descaso de menina que fez só
um losango de papel de seda
sedo
a sede é o poema que queria ser de
quem antes de mim fez versos
de quem depois de mim fará
mas é meu
e em mim não sabe pousar

o poema não é meu
o poema é seu
mas ele não sai
ensaio
um desmaio oblícuo
um grito curto
um mergulho fundo
recaio
diante da soleira

o poema é um homem de terno com um buquê de flores
que não toca uma campainha
que não berra debaixo da sacada
nem canta

o poema está quieto
bicho tímido
acabrunhado e mudo
pintando os próprios lábios
pra ver se aparece

meu lápis de olho é uma caneta bic

o poema me olha de lado
ri da minha cara
imita a tua risada
pra me fazer sorrir

há tanto tempo eu quero
te escrever um poema.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

quinta

Essas cores de inverno tardio estão ridículas
    vivas e ardidas
    bonitas mesmo.
E os óculos que são pra longe e perto
                               segundo ele
não vêm longe um caralho.

prefiro a brandura sem aros

Está gelado como se quis
Aqui
longe de você e da luta.
passada a pauta, o papel contact.
Está gelado depois de dizer 'não quero mais,
querida, não quero mais os teus conselhos grossos'
essa massa de piche, esse púlpito.

Gelada, mas azul
um azul cru
sobre o vermelho-terra do prédio da frente
(que é na verdade prédio de trás)
uma nesga de árvore no meio roncando de verde
o som do busão com as núvens por cima.

Puta que me pariu quanta beleza
nesses pedaços
caquinhos
de fim de tarde
nesse gelo de logo antes de vestir a meia

- Dormir com dois cobertores
  Ter plantas na sacada
  Conseguir pensar em qualquer outra coisa . -

A lambida laranja que desce sobre a Lapa
hoje não misturou nenhum
dos tons da minha janela

O som das buzinas é claro
Tudo é mensurável
          audível
           tudo dá pra ver.

O sol se põe, mas não escurece.

segunda-feira, 28 de março de 2016

morte

tem sempre alguém que está morrendo. no mundo, tem sempre alguém morrendo. morre muita gente no mundo, muita gente diria. Nasce também muita gente no mundo. Mas às vezes tem a notícia de alguém que está morrendo. Alguém que estava vivo, alguém que apareceu na nossa história está morrendo. Alguém que a gente lembra da voz, alguém que a gente conhece o sotaque, o jeito do sorriso, a posição dos dentes, o jeito que gosta das coisas, a arte que fez. Alguém que estava vivo está morrendo. A voz ecoa ainda dentro da gente, e a pessoa morre fora da gente. Perdemos, nós perdemos, como uma partida do jogo: time, perdemos essa. A gente para, respira, aperta e esguicha sal, porque perdemos uma pessoa. Não precisa medir a proximidade, sim, a dor é maior quanto mais perto do ponto na reta: mas é morte, apaga uma coisa que estava acesa, silencia, seca um espaço, some uma cor leve do céu. às vezes choramos por pessoas que não conhecíamos: anthony marignetti, david bowie, lou reed. mas a arte da pessoa é a pessoa misturada com outras coisas, e a gente chora porque o mundo não tem mais uma coisa que tinha antes. antes no mundo existia uma pessoa chamada lou reed que fez um disco que me faz chorar para os dois amigos dele que morreram de câncer, que costura o luto dos outros, que faz poema com a guitarra e canta a cidade de nova york como precisava alguém cantar. depois daquele dia, não tinha mais isso no mundo. perdemos, dá aqui tua mão, moça do meu lado na fila do mercado, me da a mão, dono da papelaria, me dá a mão que não tem mais no mundo uma coisa que tinha antes, e que era tão bonita, e que eu não conhecendo eu conheço uma pegada, e eu vejo a cor que desaparece entre as outras. eu imagino, e imaginando a gente vê.

lou reed morreu dia 27 de outubro de 2013. eu fui para ny na semana seguinte, deitei numa cama num quarto alugado de um apartamento e escutei o New York olhando pro teto, chorando de vez em quando, colorindo nos espaços em branco entre as letras, imaginando o espaço possível que ele me deu de presente, e entendendo que a voz gravada entrando pelos meus ouvidos não existia mais. agradeci a alguns deuses pelo privilégio de tê-lo visto tocar ao vivo uma vez um som tão lindo e distante da linguagem em que conversávamos, eu e o querido amigo sentado ao meu lado. me lembro de ter escrito algo de lapis no escuro no panfleto do show no meio de uma música, uma frase que devia um dia virar um poema. não sei mais a frase, não escrevi o poema. Ontem procurava um cd para ouvir na estrada e uma coincidência colocou o Magic and Loss na minha mão. Outro disco do Lou Reed, bem posterior ao New York. O Magic and Loss foi feito para dois amigos dele que morreram de câncer, naquele formato poesia-punk dele em que frases dissonantemente diretas e anti-sentimentais atravessam mares de sons doloridos e fundos de um azul ou preto, cause "the coal black sea waits forever", ou cortes de metáfora estilhaçam um aparentemente inocente rockzinho animado. Pensei naquela guitarra que pra mim sempre pareceu poesia em língua estrangeira. Poesia numa língua antiga que não falo, mas que, muitos anos atrás, originou a minha (talvez no ouvido dos meus pais, recém apaixonados de jaquetas de couro e cabelos raspados aos vintepoucos anos). Pensei naqueles punk poems regados a melodia do magic and loss e dos amigos dele que teriam escutado de novo essas canções depois da morte dele, ressignificando e mudando personagens de lugar: agora somos nós that didn't get a chance to say goodbye. Pensei nos lutos. Pensei na Mônica também.

Hoje de manhã minha mãe me contou que a Mônica estava morrendo, já estava no hospital há alguns dias, e não havia mais muito o que fazer. As histórias de câncer se repetem. Lembrei da Jane, que visitamos todos os últimos dias. Hoje a Mônica morreu em um hospital em Porto Alegre. And no I didn't get a chance to say goodbye. A história não é minha, quase tanto quanto não é minha a morte do Lou Reed. Mas o luto dele pelos amigos no magic and loss, o luto nosso por ele e por sua guitarra escritora de poemas faz trança no ar com a Mônica e sua risada, tudo o que ela construiu, seus filmes, seus amigos, seu jeito de dizer o nome das pessoas. Gostava muito do seu sotaque. Gostava de muitas coisas. A morte nos outros é a morte na gente também, a lembrança daquilo que tece o chão onde pisamos: "there's a bit of magic in everything. and then some loss to even things out". Pensamos que temos que ir no médico, que temos que dizer que nos amamos, que temos que ser mais verdadeiros, pensamos em desespero que queremos viver pra sempre. Não, eu não acho que sejamos egoístas: eu acho que a morte é uma rede, e que os pontos de encontro os nós são feitos são nós de pensar nos outros e de pensar em nós. Quando anthony morreu eu chorei e tive muita certeza de que era preciso ser verdadeira com o que eu sentia: não posso morrer sem viver isso. eu chorei pela perda da pessoa que não conheço, com quem troquei três mensagens, mas que escreveu coisas belas e disse coisas lindas a uma pessoa que escreveu outras coisas belas que me fazem ser quem eu sou. a rede. A rede não é projeção da gente no mundo: a rede é a gente no mundo. Eu amo minha invenção dessas pessoas que não é menos real que a minha lembrança da Mônica escalando a pedra nãolembroonome e a gente acenando lá embaixo, e a Mônica pra quem eu dei chiclete sabor hortelã porque tinha a piada no filme, e ela me olhava e sorria e eu achava que ela estava feliz porque tinha uma criança no meio daquela bagunça toda de pós-produção. Amor é amor, e se mistura com imaginação, com dor, com o que a gente quer e não quer para nós. Tive muito medo de morrer hoje. Tive muito medo de perder as pessoas que amo hoje. Chorei o choro da amiga e do marido que estão agora se preparando para ir para o enterro amanhã e que vão aprender a viver sem um pedaço deles para sempre. Nós perdemos, time, hoje nós perdemos mais uma pessoa. Mais um pedaço de sol, de cor. 

Pensei também ontem que, por alguma sorte minha, a maioria das pessoas que perdi estão vivas. A maioria das pessoas que perdi não morreram, perdi pra outras coisas, mas não pra morte. Perdi algumas pessoas para a morte sim: a Doni quando criança, quando comecei a tentar entender o que era alguém deixar de existir. O Florestan na adolescência, dia 20 de Outubro de 2003, perto do dia do lou reed, 10 anos antes. O Florestan que está em todos os pores do sol que eu olhar pro resto da minha vida, e que tinha sardas e cachos, e sim, me lembro da voz dele. E ontem também tocou Babe Im Gonna Leave You na estrada. A Jane cantando "se eu quiser falar com deus" numa clareira de mundo que se formou em torno para ouvir a voz mais profunda numa noite de grilos, e deixou pra nós a menina que me sabe mais que todos os seres: the angel on my bike. Perdi meu vô, meu "nonno", que fazia piadas e me leu a odisséia na infância, dolorido e antigo, um conto inacabado na gaveta desde então e um casulo da lagarta que encontramos na noite anterior na hortelã. Tudo tece metáforas, e é nelas que a gente se segura. Todas as pessoas viram histórias: não a história de vida delas só, mas a biblioteca imensa de histórias que se entrecruzam nas memórias dos outros, a gente dá cores e tons, e as pessoas ficam escritas no mundo, em milhões de versões. Ainda assim, a maioria das pessoas que eu perdi está viva. Isso, pensei, isso deveria bastar. Não, eu não vou, mesmo que me tente de leve no auge de alguns choros de solavanco, pegar o telefone e tentar reatar cortes que não têm linha, não por isso. Mas perder alguém para a vida não é como perder alguém para a morte. As pessoas que eu perdi para a vida, para as mudanças de cada um, para os momentos, para as distâncias, para os erros mútuos ou acertos, para os desencontros puros, essas pessoas o mundo ainda tem. Outras pessoas têm por perto as pessoas que eu perdi, e isso, insisto, isso deverá um dia me bastar. Me alegra agora saber que vocês existem. Que em algum lugar em algum canto vocês cantam, riem, escrevem, dançam, pensam, inventam e fazem vento e garoa macia para a vida de outras pessoas. Vocês existem, que alegria. As pessoas que eu perdi pra vida o mundo não perdeu. Isso deve bastar.

Quando aos outros, quanto à Mônica, à Jane, ao Nonno, ao Anthony, ao Lou Reed, o Bowie, o Florestan, a Doni. Quando a vocês: o mundo se encarrega de transformá-los em arte, tecida e trançada nas memórias e desenhos daqui. O mundo se encarrega, e eu faço meus votos: rego as flores e os pores do sol todos os dias pela manhã, e agradeço ao me deitar. Fiquem em palavras e amor. Vão em paz.